Blog Fundsys · Risco · Leitura de 21 min

Value at Risk (VaR): o guia definitivo para gestoras de fundos

O que o VaR mede, como calcular pelos três métodos, como validar o modelo com backtesting — e por que, em FIDCs, o VaR calculado do jeito padrão devolve um número perigosamente baixo.

Bruno Haas

CEO · Fundsys

Pablo Brenner

CTO · Fundsys

· 22 min de leitura

Resposta rápida

O Value at Risk (VaR) estima a perda máxima esperada de uma carteira em um horizonte definido, sob condições normais de mercado, a um dado nível de confiança. Um VaR de R$ 500 mil a 99% em 1 dia significa: em 99 de cada 100 dias, a perda não deve superar R$ 500 mil. Sobre o dia restante, o VaR não diz nada.

Há três métodos de cálculo — paramétrico, histórico e Monte Carlo — e nenhum deles vale muito sem backtesting, o processo que compara a perda realizada com a estimada e conta as exceções. Pelo critério de Basileia, até 4 exceções em 250 dias mantêm o modelo na zona verde; 10 ou mais o invalidam.

Para saber quanto se perde quando o limite é rompido, existe o Expected Shortfall (ES), hoje a métrica recomendada pelo FRTB. E em FIDCs, o VaR calculado sobre a série da cota tende a subestimar o risco de forma grave — porque perda de crédito não segue distribuição normal.

O que é o VaR — e qual pergunta ele responde

Definição

Value at Risk (VaR) é a perda máxima esperada de uma carteira, em um horizonte de tempo definido, sob condições normais de mercado, a um determinado nível de confiança.

Repare que a definição tem três parâmetros presos a ela: horizonte, nível de confiança e moeda. Um VaR sem os três é um número sem significado. "O VaR do fundo é R$ 500 mil" não quer dizer nada. "O VaR do fundo é R$ 500 mil a 99% em 1 dia" quer dizer algo bem específico:

  • Em 99 de cada 100 dias, espera-se que a perda não ultrapasse R$ 500 mil.
  • Em 1 de cada 100 dias, espera-se que ultrapasse. Esse dia tem nome: é uma exceção.
  • Sobre quanto se perde nesse dia, o VaR é silencioso. Ele marca a fronteira, não o que existe além dela.

Esse silêncio não é um defeito escondido — é o desenho da métrica. O problema aparece quando a equipe de risco esquece disso e passa a tratar o VaR como se fosse a perda máxima possível. Não é. É a perda máxima provável, e apenas dentro do regime de mercado que os dados usados no cálculo conseguiram enxergar.

Figura 1

Onde o VaR corta a distribuição de resultados

VaR 95% 95% dos dias a perda fica dentro do VaR 5% dos dias a perda ultrapassa ◄ perdas ganhos ► O VaR marca a fronteira. Sobre o tamanho da perda além dela, a métrica é silenciosa.
A curva representa a distribuição dos resultados diários da carteira. O VaR é o ponto que separa os 95% de dias “normais” dos 5% piores — nada mais que isso.

Os três métodos de cálculo

Os três métodos respondem à mesma pergunta e chegam a números diferentes. A diferença está em como cada um constrói a distribuição de perdas a partir da qual o percentil é lido.

Figura 2

Como cada método constrói a distribuição de perdas

Paramétrico Histórico Monte Carlo
O paramétrico impõe a curva normal. O histórico a distribuição que os dados observados formaram, irregularidades inclusive. O Monte Carlo gera milhares de trajetórias e monta a distribuição a partir delas.
MétodoComo funcionaMelhor paraPonto fraco
Paramétrico
(delta-normal)
Assume que os retornos seguem distribuição normal e deriva o VaR da volatilidade e das correlações. Carteiras lineares e líquidas, sem derivativos. Cálculo rápido e auditável. Subestima eventos extremos: o mercado real tem caudas mais gordas que a normal.
Histórico Reordena os retornos efetivamente observados na janela e lê o percentil desejado. Carteiras com histórico relevante. Não impõe nenhuma forma de distribuição. Refém da janela: se o período não contém crise, o VaR não contém crise.
Monte Carlo Simula milhares de cenários a partir de um modelo estatístico e monta a distribuição resultante. Payoffs não lineares — opções, estruturas com barreiras, derivativos. Custo computacional e risco de modelo: o resultado só é tão bom quanto as premissas.
Boa prática: rode os três e compare

Divergência grande entre os métodos raramente é ruído. Costuma indicar assimetria relevante na carteira, janela de dados mal escolhida ou algum ativo com preço mal formado. O desacordo entre os modelos é, ele mesmo, uma informação de risco.

A fórmula do VaR paramétrico, na prática

É o método mais usado no dia a dia porque cabe em uma linha e pode ser reproduzido por qualquer pessoa que tenha os dados:

VaR = Zα × σ × √t × P
Z = valor crítico da normal · σ = volatilidade · t = horizonte em dias · P = valor da posição
  • Zα — o valor crítico da distribuição normal para o nível de confiança escolhido.
  • σ — o desvio-padrão dos retornos da carteira, na mesma periodicidade dos dados (normalmente diária).
  • √t — o fator de escala temporal. Para levar um VaR de 1 dia a 10 dias, multiplica-se por √10.
  • P — o valor da carteira ou da posição.

Valores críticos por nível de confiança

ConfiançaZαExceções esperadas em 250 dias
90%1,28225,0
95%1,64512,5
97,5%1,9606,3
99%2,3262,5
99,9%3,0900,3

Exemplo numérico completo

Carteira de R$ 1.000.000 com volatilidade diária de 2%. Veja como o mesmo portfólio produz quatro números bem distintos dependendo dos parâmetros escolhidos:

ParâmetrosCálculoVaR
95%, 1 dia1,645 × 0,02 × √1 × 1.000.000R$ 32.900
99%, 1 dia2,326 × 0,02 × √1 × 1.000.000R$ 46.520
95%, 10 dias32.900 × √10R$ 104.039
99%, 21 dias46.520 × √21R$ 213.181

Do primeiro ao último há um fator de 6,5×, com a mesma carteira e a mesma volatilidade. É por isso que comparar o VaR de dois fundos sem checar os parâmetros de cada um não produz comparação nenhuma.

Cuidado com a regra da raiz do tempo

Multiplicar por √t pressupõe retornos independentes e identicamente distribuídos. Em mercados com autocorrelação ou agrupamento de volatilidade — o que é a norma, não a exceção, em períodos de estresse — essa conta subestima o risco de horizontes longos. É uma aproximação aceita pelo mercado, não uma verdade matemática.

Nível de confiança e horizonte: escolhas que mudam o número

NívelInterpretaçãoUso típico
95%Em 95% dos dias a perda não supera o VaR. Há 5% de chance de exceção.Mais sensível. Controle interno, acompanhamento tático, limites de mesa.
99%Em 99% dos dias a perda não supera o VaR. Apenas 1% de chance de exceção.Mais conservador. Exigências regulatórias e backtesting no padrão Basileia.

Quanto maior o nível de confiança, maior o VaR — porque a métrica passa a incorporar eventos mais raros. Já o horizonte deve refletir o tempo que a carteira levaria para ser desmontada em condições de estresse. Um fundo de ações líquidas comporta horizonte de 1 dia; um fundo de crédito privado, não.

Nada disso é uma decisão técnica. É uma decisão de política. E o que separa uma gestora bem estruturada de outra improvisada é ter esse par (confiança, horizonte) escrito na política de gestão de risco, com justificativa — porque é exatamente isso que o administrador fiduciário, o alocador institucional e o auditor vão pedir para ver.

Backtesting: o teste de realidade do modelo

Calcular VaR é a parte fácil. A pergunta que importa é outra: esse número está certo? O backtesting responde comparando, dia a dia, a perda que de fato ocorreu com o VaR que havia sido estimado para aquele dia. Cada vez que a perda real supera a estimativa, registra-se uma exceção.

Figura 3

Backtesting: contando as exceções pregão a pregão

VaR estimado 0 exceção — a perda realizada superou o VaR pregões ►
Recorte ilustrativo, comprimido para caber na tela. O que importa não é o desenho, e sim a contagem acumulada em 250 pregões — é ela que define a zona do modelo.

A lógica é estatística. Com 99% de confiança, espera-se que a perda ultrapasse o VaR em 1% dos dias — cerca de 2,5 exceções em 250 dias úteis. Muito acima disso, o modelo subestima o risco.

Zero exceção não é boa notícia

É o erro de leitura mais comum. Um modelo que nunca é rompido está superestimando o risco — e isso tem custo real: limites operacionais mais apertados do que o necessário, alocação sub-ótima e, em instituições sujeitas a capital regulatório, capital imobilizado à toa. O alvo do backtesting é calibração, não ausência de exceções.

P&L limpo ou P&L sujo?

Detalhe técnico que muda o resultado e costuma passar despercebido. Existem duas formas de medir a perda realizada:

  • P&L limpo (hipotético) — reavalia a carteira congelada do dia anterior com os preços de hoje. Isola o efeito puro de mercado.
  • P&L sujo (real) — inclui tudo: movimentações do dia, taxas, aportes e resgates.

Para validar o modelo, use o P&L limpo. O P&L sujo mistura decisão de gestão com erro de modelo, e você acaba punindo o modelo por uma operação que o gestor fez no meio do dia. Guardar as duas séries é a prática correta: uma valida o modelo, a outra explica o resultado.

Zonas de Basileia e o fator de escala

O Comitê de Basileia padronizou a leitura do backtesting em três zonas, conforme o número de exceções em 250 dias úteis a 99% de confiança. A cada zona corresponde um fator de escala, multiplicador aplicado sobre o capital regulatório exigido.

Figura 4

As zonas de backtesting de Basileia e o fator de escala

ZONA VERDE ZONA AMARELA VERMELHA fator 3,00 4,00 0123456789≥10 exceções fator 3,403,503,653,753,85 7 exceções → capital × 3,65
Contagem sobre 250 pregões, ao nível de confiança de 99%. Gestoras não calculam capital regulatório, mas a régua virou a linguagem comum para responder se um modelo de risco é confiável.
ExceçõesZonaInterpretaçãoFator
0 a 4VerdeModelo válido e estável3,00
5AmarelaRisco subestimado; revisão recomendada3,40
6AmarelaModelo deve ser ajustado3,50
7AmarelaFalha significativa na estimação3,65
8AmarelaExposição mal representada3,75
9AmarelaLimite de tolerância do modelo3,85
≥ 10VermelhaModelo inválido; exige substituição4,00

Por que isso importa para uma gestora que não está sujeita a Basileia

Gestoras de recursos não calculam capital regulatório. Ainda assim, a régua de Basileia virou a linguagem franca do risco de mercado no Brasil — e é usada por quem avalia você.

Um exemplo torna concreto: um fundo com 7 exceções no ano entra na zona amarela, fator 3,65. Se a exigência associada era de R$ 1,5 milhão (R$ 500 mil × 3,00), passa a ser de R$ 1,825 milhão (R$ 500 mil × 3,65). Mesmo sem exigência de capital, a mensagem é a mesma: o modelo está subestimando o risco em grau mensurável. Administradores fiduciários, bancos custodiantes e alocadores institucionais leem exatamente esse indicador nas suas diligências. Reportar a zona de backtesting é o jeito mais rápido de responder "seu modelo é confiável?" com um número em vez de uma opinião.

Backtesting contínuo, sem planilha

O Fundsys calcula o VaR nos três métodos, roda o backtesting diário, conta as exceções e classifica automaticamente a zona de Basileia com o fator correspondente — com histórico auditável para comitê e diligência.

Ver aplicado aos seus fundos

Do VaR ao Expected Shortfall

Volte à limitação estrutural do VaR: ele marca a fronteira da perda, mas não diz o que há do outro lado. Dois fundos podem ter exatamente o mesmo VaR de R$ 500 mil e comportamentos completamente distintos quando esse limite é rompido — um perde R$ 520 mil, o outro perde R$ 4 milhões. O Expected Shortfall existe para separar esses dois casos.

Definição

Expected Shortfall (ES), também chamado de CVaR ou VaR condicional, é a média das perdas que superam o VaR. Se o VaR responde "quanto posso perder com 99% de confiança?", o ES responde "quando eu passar disso, quanto devo perder em média?".

Figura 5

VaR marca a fronteira; Expected Shortfall descreve a cauda

VaR 99% = 2,326 σ ES 99% = 2,667 σ o 1% pior dos dias 99% dos dias O ES é a média de todas as perdas dentro da faixa laranja — não apenas o seu início.
Valores em desvios-padrão sob distribuição normal. Em carteiras com caudas gordas, a distância entre o VaR e o ES aumenta — e é exatamente essa distância que o VaR sozinho deixa invisível.

Sob distribuição normal, os dois se relacionam de forma previsível:

MétricaEm desvios-padrãoLeitura
VaR 95%1,645 σFronteira da perda em 95% dos dias
VaR 99%2,326 σFronteira da perda em 99% dos dias
ES 97,5%2,338 σMédia das perdas nos 2,5% piores dias
ES 99%2,667 σMédia das perdas nos 1% piores dias

Sob normalidade, ES 97,5% ≈ VaR 99%. Em distribuições com caudas gordas, o ES se descola para cima — e é justamente essa diferença que ele existe para capturar.

Por que Basileia trocou uma pela outra

O Fundamental Review of the Trading Book (FRTB) substituiu o VaR a 99% pelo ES a 97,5% como métrica de risco de mercado. A tabela acima mostra que a troca não foi feita para aumentar o número — sob normalidade os dois praticamente coincidem. Foi feita para mudar a natureza da métrica: o ES enxerga a cauda inteira, e o VaR não.

Há ainda uma razão técnica mais profunda. O ES é uma medida coerente de risco; o VaR não é, porque falha na propriedade da subaditividade. Em carteiras com perdas assimétricas — crédito estruturado é o caso clássico —, o VaR do conjunto pode aparecer maior que a soma dos VaRs individuais. Ou seja: a métrica passa a punir a diversificação, que é o oposto do que deveria fazer. O ES não tem esse defeito.

VaR em FIDCs: por que o número dá quase zero

Aqui mora o erro mais caro que vemos na prática. A rotina é conhecida: pega-se a série histórica da cota do FIDC, calcula-se o desvio-padrão dos retornos, aplica-se a fórmula paramétrica. O resultado é um VaR próximo de zero.

E então alguém conclui que o fundo é pouco arriscado. Não é uma boa notícia — é um artefato.

Figura 6

Duas formas de risco que não cabem na mesma fórmula

Risco de mercado retorno diário de ativo líquido Risco de crédito perda da carteira de recebíveis simétrica — a forma que o VaR assume assimétrica — a forma real cauda longa Aplicar a fórmula da esquerda a um ativo da direita produz um número baixo — e falso.
No crédito, quase todos os recebíveis pagam o combinado (massa concentrada perto de zero) e poucos geram perda severa (a cauda longa). Não há ganho extraordinário do outro lado para equilibrar a curva.

As três razões pelas quais o número sai errado

Razão 1
A cota é apropriada por competência, não marcada a mercado

Direitos creditórios são reconhecidos por curva de apropriação. A série de retornos da cota é, por construção, artificialmente suave — ela reflete a metodologia contábil, não a oscilação econômica dos ativos. Volatilidade baixa por construção produz VaR baixo por construção.

Razão 2
Perda de crédito não tem forma de sino

O retorno de um recebível é assimétrico e truncado: no melhor cenário você recebe exatamente o combinado — não há ganho extraordinário. No pior, perde o principal. A distribuição resultante concentra massa perto de zero e estende uma cauda longa e rara de perdas severas. A curva normal não descreve isso nem de longe.

Razão 3
Não existe saída no horizonte do VaR

Um VaR de 1 ou 10 dias carrega implícita a premissa de que a posição poderia ser desmontada nesse prazo. Direitos creditórios não têm mercado secundário líquido. O horizonte economicamente relevante é o do fluxo dos recebíveis e do cronograma de amortização das cotas — não o do pregão.

O que monitorar no lugar

Em um FIDC, o risco não está na volatilidade do preço. Está na qualidade do crédito, na concentração e na capacidade da estrutura de absorver perdas. As métricas que respondem a isso são outras:

  • PDD e evolução por faixa de atraso — a deterioração aparece na migração entre faixas antes de aparecer na cota.
  • Inadimplência por safra (vintage) e por cedente — separa piora de mercado de piora de originação.
  • Concentração por cedente, sacado e grupo econômico — em FIDC multicedente, é a concentração que mata, não a oscilação.
  • Índice de subordinação frente à perda esperada — a pergunta real é se a subordinação cobre o cenário de estresse, não qual é o VaR.
  • Stress test sobre a taxa de inadimplência — estressa-se o default, não o preço.
  • Fluxo projetado dos recebíveis contra o cronograma de amortização — o descasamento é o risco de liquidez real do veículo.
Quando o VaR faz sentido em um FIDC

Na parcela líquida da carteira: caixa, títulos públicos e privados que compõem a reserva de liquidez. Ali existe preço de mercado observável e o VaR mede exatamente o que se propõe a medir. A prática correta é calcular o VaR da parcela líquida e tratar o crédito com métricas de crédito. Comprimir as duas coisas em um único número é precisamente o que produz o falso conforto.

As 6 limitações do VaR — e como contorná-las

Limitação 1
Não diz o tamanho da perda além do corte

O VaR informa a fronteira e para por ali. Duas carteiras com VaR idêntico podem ter caudas radicalmente diferentes.

Como contornarCalcular Expected Shortfall junto com o VaR, sempre. São duas linhas do mesmo relatório, não uma escolha entre métricas.
Limitação 2
Assume normalidade quando é paramétrico

Retornos de mercado têm caudas mais gordas que a normal. Em crises, o que o modelo classifica como evento de mil anos acontece em semanas seguidas.

Como contornarUsar VaR histórico ou Monte Carlo com distribuição t-Student; em carteiras com cauda relevante, aplicar teoria de valores extremos (EVT).
Limitação 3
Não é uma medida coerente de risco

O VaR pode violar a subaditividade: o VaR da carteira consolidada pode superar a soma dos VaRs individuais, sugerindo que diversificar aumentou o risco.

Como contornarUsar ES para decisões de alocação e limites agregados; reservar o VaR para comunicação e comparabilidade.
Limitação 4
Ignora o risco de liquidez

O cálculo pressupõe que a posição pode ser desmontada no horizonte escolhido, ao preço de tela. Em estresse, spread abre e profundidade some.

Como contornarAjustar o horizonte ao prazo real de desmontagem por classe de ativo e manter controle de liquidez separado, com projeção de resgates.
Limitação 5
Olha para trás

Todo VaR é estimado sobre o passado. Ele não antecipa mudança de regime, choque regulatório ou evento sem precedente na série.

Como contornarComplementar com stress test prospectivo, usando cenários hipotéticos construídos à mão — não apenas replays históricos.
Limitação 6
É refém da janela de dados

Janela curta reage rápido e oscila demais; janela longa é estável e lenta para reconhecer o aumento de risco. Nenhuma escolha é neutra.

Como contornarRodar janelas múltiplas em paralelo e usar volatilidade condicional (EWMA ou GARCH), garantindo que ao menos uma janela contenha período de crise.

VaR e conformidade: o que CVM e ANBIMA esperam

Convém ser preciso aqui, porque circula muita imprecisão sobre o tema: nenhuma norma da CVM obriga o uso do VaR em fundos de investimento. O que a regulação exige é estrutura de gestão de risco — política formal, métricas compatíveis com a estratégia do fundo, monitoramento efetivo e registro do que foi observado.

  • Resolução CVM 175 — consolidou o marco regulatório dos fundos e reforçou a exigência de gestão de risco compatível com a natureza e a complexidade de cada veículo.
  • Resolução CVM 21 — aplica-se aos gestores de recursos, exigindo regras, procedimentos e controles de risco formalizados por escrito.
  • Códigos ANBIMA — os códigos de administração e gestão de recursos de terceiros exigem monitoramento e reporte de risco, com atenção específica ao risco de liquidez.

Na prática, o VaR se tornou a métrica padrão para demonstrar esse controle em fundos com risco de mercado relevante — porque é comparável entre fundos, replicável a partir dos dados e auditável. Não porque alguma norma o determine nominalmente.

O que realmente é cobrado numa diligência

  • A política escrita especifica qual métrica, qual nível de confiança, qual horizonte e qual método?
  • O cálculo é reproduzível a partir dos dados que a gestora efetivamente arquiva?
  • Existe backtesting documentado, com histórico de exceções ao longo do tempo?
  • Existe registro do que foi feito quando um limite foi rompido — quem foi avisado, o que se decidiu, em quanto tempo?

O quarto item é o que mais falha. Calcular VaR é trivial. Provar, seis meses depois, o que a equipe fez no dia em que o limite estourou — isso exige trilha de auditoria, e trilha não se produz retroativamente.

Como operacionalizar tudo isso

O conteúdo acima descreve o que uma estrutura madura de risco de mercado precisa ter. Montar isso em planilha é possível; sustentar mês após mês, com trilha auditável e sem depender de uma pessoa específica, é outra história.

No módulo de Risco e Performance do Fundsys, esse fluxo já vem montado:

  • VaR nos três métodos — paramétrico, histórico e Monte Carlo — com múltiplos níveis de confiança e horizontes.
  • Expected Shortfall calculado em paralelo ao VaR, no mesmo relatório.
  • Backtesting contínuo, com contagem de exceções e classificação automática na zona de Basileia e respectivo fator de escala.
  • Exposição a Fatores Primitivos de Risco (FPR), volatilidade, drawdown e Sharpe na mesma visão.
  • Stress test com cenários configuráveis e comparação com benchmarks de mercado.
  • Para FIDCs: PDD, faixas de atraso, concentração por cedente e sacado, subordinação e inadimplência — as métricas que o VaR não cobre.
  • Histórico auditável e relatórios prontos para comitê de risco, administrador fiduciário e diligência de alocador.

Perguntas frequentes sobre VaR

O que é VaR em fundos de investimento?

É a estimativa da perda máxima esperada da carteira em um horizonte definido, sob condições normais de mercado, a um dado nível de confiança. Um VaR de R$ 500 mil a 99% em 1 dia indica que, em 99 de cada 100 dias, a perda não deve superar esse valor. O VaR não informa o tamanho da perda quando esse limite é rompido.

Qual a diferença entre VaR e Expected Shortfall?

O VaR marca a fronteira da perda em determinado nível de confiança. O Expected Shortfall calcula a média das perdas que superam essa fronteira — ou seja, descreve o que acontece na cauda. O ES é uma medida coerente de risco (respeita a subaditividade), o que o VaR não garante, e por isso foi adotado pelo FRTB do Comitê de Basileia como métrica de risco de mercado a 97,5% de confiança.

Devo usar 95% ou 99% de confiança?

Depende do uso. O nível de 95% é mais sensível e serve bem para controle interno e limites operacionais do dia a dia. O de 99% é mais conservador e é o padrão para backtesting no critério de Basileia e para comunicação com reguladores e alocadores. Muitas gestoras calculam ambos. O essencial é que a escolha esteja formalizada na política de gestão de risco, com justificativa.

Como fazer backtesting de VaR?

Compare diariamente a perda efetivamente realizada com o VaR estimado para aquele dia e conte as vezes em que a perda superou a estimativa — as exceções. Para validar o modelo, use o P&L limpo (carteira congelada do dia anterior reavaliada com os preços de hoje), que isola o efeito de mercado. O P&L sujo, que inclui movimentações e taxas, mistura decisão de gestão com erro de modelo.

Quantas exceções são aceitáveis?

Com 99% de confiança em 250 dias úteis, esperam-se cerca de 2,5 exceções. Pelo critério de Basileia, de 0 a 4 exceções mantêm o modelo na zona verde; de 5 a 9 na zona amarela, com fator de escala crescente de 3,40 a 3,85; e 10 ou mais na zona vermelha, indicando modelo inválido. Vale notar que zero exceção também é sinal de problema — indica modelo excessivamente conservador.

O VaR é obrigatório pela CVM?

Não. Nenhuma norma da CVM impõe nominalmente o uso do VaR em fundos de investimento. O que a Resolução CVM 175, a Resolução CVM 21 e os códigos ANBIMA exigem é uma estrutura formal de gestão de risco, com métricas compatíveis com a estratégia do fundo, monitoramento e registro. O VaR se consolidou como métrica padrão para demonstrar esse controle por ser comparável, replicável e auditável.

O VaR funciona em FIDC?

Apenas parcialmente. Aplicado sobre a série da cota, tende a subestimar gravemente o risco: a cota é apropriada por competência (série artificialmente suave), a perda de crédito é assimétrica e não segue distribuição normal, e não há mercado secundário que permita desmontar a posição no horizonte do cálculo. O VaR faz sentido sobre a parcela líquida da carteira. O risco de crédito deve ser monitorado por PDD, faixas de atraso, concentração por cedente e sacado, subordinação e stress sobre a taxa de inadimplência.

Qual método de cálculo escolher?

Carteiras lineares e líquidas, sem derivativos, são bem atendidas pelo método paramétrico, que é rápido e auditável. Carteiras com histórico relevante e caudas gordas se beneficiam do VaR histórico, que não impõe forma de distribuição. Estruturas com payoff não linear — opções e derivativos — exigem Monte Carlo. A boa prática é rodar os três e comparar: divergência grande entre eles costuma sinalizar assimetria na carteira ou problema nos dados.

Publicado em 26 de agosto de 2026. Este guia consolida e substitui três artigos anteriores do blog sobre VaR, backtesting e VaR em FIDCs. Conteúdo técnico e referências regulatórias são revisados trimestralmente.

Risco de mercado com trilha auditável, não com planilha

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