Mais Fundos, Mais ADMs: o novo padrão operacional das gestoras

Bruno Haas

Bruno Haas é economista e responsável pela redação da Fundsys, com foco em finanças, economia, gestão de fundos, risco e inteligência de dados aplicados ao mercado financeiro.

O número médio de administradores fiduciários por gestora mais do que dobrou entre 2010 e 2025 – um dado que reflete o novo padrão operacional das gestoras.

Ao analisar a evolução das gestoras com fundos ativos ao longo dos últimos 15 anos, os dados deixam claro que o crescimento da indústria não veio apenas acompanhado de mais patrimônio, mais fundos ou mais estratégias. Ele trouxe, de forma estrutural, mais administradores fiduciários por gestora — e, com isso, um novo nível de complexidade operacional.

O número médio de administradores fiduciários por gestora praticamente dobrou entre 2010 e 2025 – um dado que reflete o novo padrão operacional das gestoras.

→ Em 2025, a média geral ultrapassa 4,7 administradores por gestora chegando em uma faixa de 5 a 6 administradores em média em grupos de gestoras com maior quantidade de fundos (até 50-100 fundos
→ Gestoras com mais de 100 fundos tem em média 8 administradores, podendo chegar em até 22
→ Nos últimos 05 anos, as gestoras que mais cresceram em número de administradores tem entre 20 e 50 fundos sob gestão.

O crescimento por faixa de porte

Quando observamos os dados por faixa de quantidade de fundos sob gestão, o padrão se torna ainda mais evidente:

  • Gestoras de menor porte (até 5 fundos) operam, em média, com cerca de 1,9 administrador.
  • À medida que a gestora avança para até 10 e até 20 fundos, a média sobe para aproximadamente 2,9 a 3,6 administradores.
  • Em gestoras com até 50 fundos, a média já supera de 5 administradores.
  • Nas gestoras maiores, até 100 fundos, a média supera 6 administradores fiduciários.
  • Nos grupos de maior porte, com mais de 100 fundos, a média chega a 8,4 administradores por gestora em 2025.

Ou seja, as gestoras que mais crescem operam consistentemente acima da média do mercado, confirmando que escala e complexidade caminham juntas. Não se trata de exceção, mas de um padrão recorrente.

Uma transformação estrutural da indústria

Esse movimento reflete uma transformação estrutural da indústria de gestão de recursos. À medida que o número de administradores fiduciários também cresce, as gestoras passam a diversificar suas operações buscando:

  • especialização por tipo de ativo ou estratégia;
  • maior eficiência operacional e redução de custos marginais;
  • melhores condições comerciais;
  • mitigação de riscos de concentração em um único prestador.

Do ponto de vista estratégico, a decisão faz sentido. A diversificação da administração fiduciária é uma resposta natural ao crescimento, à sofisticação dos produtos e à necessidade de escalar operações.

O desafio aparece na execução.

A informação existe – mas está espalhada

Na prática, cada novo administrador adiciona um novo sistema, novos relatórios, novos layouts e novas regras de controle. Cada novo fundo cria mais um fluxo operacional específico.

O resultado é um cenário conhecido por quem vive a operação:
o dia a dia se transforma em uma sequência de acessos a portais distintos, downloads de arquivos em formatos variados, controles paralelos em planilhas e conferências manuais apenas para garantir que os números façam sentido.

Antes de qualquer análise de risco, liquidez ou performance, o time precisa organizar dados, entender a origem de cada informação e conciliar visões.

O esforço não está em decidir.
Está em montar a base.

O Custo da Complexidade

Esse acúmulo progressivo de sistemas, processos e dependências gera o que chamamos de Custo da Complexidade. Ele não aparece diretamente na DRE, mas se manifesta em:

  • aumento de horas operacionais;
  • maior risco de inconsistências e erros manuais;
  • retrabalho constante;
  • perda de foco analítico;
  • dificuldade de escalar a operação no mesmo ritmo do crescimento.

E esse custo cresce de forma não linear. O que antes era administrável rapidamente se torna um gargalo operacional à medida que a gestora expande seu portfólio e diversifica parceiros.

Padronização de dados: avanços importantes

Diante do aumento da complexidade operacional, a indústria vem avançando de forma consistente em iniciativas de padronização de dados, tanto no âmbito operacional quanto regulatório. Esses esforços são fundamentais — mas, sozinhos, não resolvem o desafio da consolidação vivido pelas gestoras.

No plano operacional, o principal marco é o Arquivo de Posição XML 5.0, padrão definido pela ANBIMA para a troca de informações entre gestores, administradores fiduciários e demais prestadores de serviço. O modelo foi desenhado para acomodar estruturas mais complexas de fundos, especialmente após a evolução regulatória que introduziu classes e subclasses, além de ampliar o detalhamento das informações de carteira.

No campo regulatório, a CVM também avançou de forma significativa com a ampliação do Portal de Dados Abertos e a padronização dos informes regulatórios — como os Informes Diários de Fundos, Informes Mensais de FIDC, FII e demais veículos. Esses conjuntos de dados estruturados aumentam a transparência do mercado e permitem análises mais amplas e comparáveis.

No entanto, mesmo com esses avanços, o desafio central da gestora permanece.

A padronização define como os dados são enviados, mas não resolve, por si só, como eles são consolidados, conciliados e utilizados no dia a dia da operação. Na prática, ainda existem diferenças relevantes entre fontes: cadastros distintos, momentos de atualização diferentes, reapresentações de dados, campos opcionais, interpretações regulatórias e divergências naturais entre dados operacionais e dados regulatórios.

Além disso, o crescimento do número de administradores fiduciários faz com que uma mesma gestora receba múltiplos arquivos XML, múltiplos relatórios e múltiplas visões — todas padronizadas individualmente, mas não integradas entre si.

É nesse ponto que o problema deixa de ser apenas formato e passa a ser governança, conciliação e visão integrada.

Centralizar para sustentar o crescimento

É nesse contexto que consolidação e centralização de dados e controles deixam de ser apenas uma melhoria operacional e passam a se tornar um elemento-chave para o crescimento sustentável.

Centralizar significa criar um ponto único de trabalho, consolidando informações de múltiplos administradores, fundos e estratégias em uma base padronizada, confiável e continuamente atualizada. Significa transformar dados dispersos em uma visão integrada da operação.

O ganho aparece rapidamente:
redução de custos operacionais, menos retrabalho, menor risco de inconsistências e, principalmente, eficiência com controle para sustentar o crescimento.

Antes de qualquer sofisticação analítica, centralizar é organizar o básico de forma eficiente. Quem vive a operação sabe o quanto isso faz diferença — especialmente quando novos fundos, novas estratégias e o próprio crescimento precisam acontecer sem que a complexidade saia do controle.

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