Inadimplência é uma curva, não um número
Um direito creditório vencido percorre um caminho: entra em atraso, migra entre faixas conforme os dias passam, e sai por pagamento, renegociação, recompra pelo cedente ou baixa como perda. O índice de atraso do mês é uma fotografia desse caminho em um ponto; a gestão de risco precisa do filme. Isso significa acompanhar estoque e fluxo: quanto está em cada faixa hoje, quanto entrou em atraso este mês, quanto migrou para a faixa seguinte, quanto saiu e por qual porta.
O índice de atraso é a temperatura do paciente; a migração entre faixas é a curva de febre. O médico decide pela curva.
Faixas de atraso: o vocabulário comum
As faixas organizam a carteira vencida por dias de atraso e são a base da provisão e da comunicação com investidores, administrador e auditor. A segmentação abaixo é a mais usada; o regulamento e o critério de provisão de cada fundo definem a sua.
| Faixa | Dias de atraso | O que costuma indicar |
|---|---|---|
| A vencer | 0 | Carteira performando; base para taxas de entrada em atraso |
| Faixa 1 | 1 a 30 | Atrasos operacionais e de caixa de curto prazo; alta taxa de cura |
| Faixa 2 | 31 a 60 | Início de deterioração; cura ainda relevante |
| Faixa 3 | 61 a 90 | Deterioração provável; ponto de decisão sobre cobrança e recompra |
| Faixa 4 | 91 a 180 | Inadimplência caracterizada (o mercado usa 90 dias como corte); provisão elevada |
| Faixa 5 | Acima de 180 | Perda provável; provisão integral ou próxima disso; cobrança judicial |
Cada faixa tem uma probabilidade histórica de virar perda, e é essa probabilidade que alimenta a provisão para devedores duvidosos pelos critérios contábeis aplicáveis ao fundo. O cálculo da PDD e o efeito na cota estão no pilar FIDC: estrutura, riscos e os controles que a operação exige.
Os indicadores que importam
| Indicador | Como calcular | Para que serve | Armadilha |
|---|---|---|---|
| Atraso por faixa | Valor vencido em cada faixa sobre a carteira de direitos creditórios | Estoque de inadimplência e base da provisão | Carteira que cresce rápido dilui o índice sem melhorar o crédito |
| Atraso acima de 90 dias | Vencidos há mais de 90 dias sobre a carteira | Inadimplência caracterizada, comparável entre fundos | Recompras antes dos 90 dias zeram o indicador sem resolver o risco |
| Roll rate (migração) | Valor que passou da faixa N para a N+1 sobre o valor que estava na faixa N no mês anterior | Antecipa o índice do mês seguinte; mede cura versus deterioração | Precisa de carteira título a título; não se calcula a partir de saldos agregados |
| Taxa de entrada em atraso | Valor que venceu no mês e não foi pago sobre o valor vencido no mês | Qualidade da originação recente | Varia por sazonalidade; comparar com o mesmo mês do ano anterior |
| Análise de safra | Para cada mês de originação, a inadimplência acumulada por mês desde a cessão | Separa carteira antiga de nova; mostra se a originação piorou | Safras recentes ainda não maturaram; comparar em idades iguais |
| Perda líquida | Baixas como perda menos recuperações, sobre a carteira média | O custo real da inadimplência | Baixa tardia esconde perda em faixas altas |
| Recompra e substituição | Valor recomprado ou substituído pelo cedente sobre o valor vencido | Quanto da inadimplência o cedente absorve | Recompra sistemática transfere o risco para o cedente e mascara a carteira |
| Cobertura da PDD | PDD sobre o valor vencido acima de 90 dias | Se a provisão acompanha o atraso | Cobertura alta com atraso crescente ainda é deterioração |
| Cobertura da subordinação | Subordinada sobre a perda esperada da carteira | Quanto de inadimplência a sênior aguenta | Subordinação que cai por amortização da subordinada, não por perda |
| Concentração do atraso | Participação dos maiores sacados e cedentes no valor vencido | Se a inadimplência é difusa ou concentrada | Um sacado em atraso pode ser 50% do vencido e 3% da carteira |
Ligando a inadimplência às cotas
A pergunta final de qualquer análise de inadimplência é se a perda esperada cabe na subordinação. Um exemplo simples: carteira de R$ 100 milhões, subordinada de 15% e PDD de 6%. A subordinada absorve 15% de perda antes de a sênior ser tocada; a provisão já consumiu 6%, restam 9 pontos de colchão. Se a migração entre faixas indica que mais 5% da carteira caminha para perda, o colchão efetivo é de 4 pontos, e o índice de subordinação vai cair quando a PDD reconhecer essa migração. É esse encadeamento, faixa, PDD, subordinação, que precisa aparecer no mesmo relatório, e não em três relatórios que ninguém junta. A concentração, que define quão rápido a curva pode piorar, está em concentração de cedente e sacado.
Sinais que aparecem antes do informe
- Roll rate da faixa 1 para a 2 subindo por dois meses seguidos, mesmo com o índice total estável.
- Recompras crescendo: o cedente está comprando de volta o que atrasa, e o caixa dele tem limite.
- Atraso concentrado em um cedente ou um sacado, o que muda o problema de crédito para lastro ou para dependência.
- Inadimplência de primeira parcela em sacados novos, sinal de originação fraca ou de lastro inexistente.
- Prazo médio da carteira alongando sem mudança de política, indicando renegociações não declaradas.
- Safra recente pior que a anterior na mesma idade.
- Pedidos de recuperação judicial de sacados ou cedentes relevantes, cada vez mais frequentes no mercado de 2026.
A rotina de acompanhamento
| Frequência | O que apurar | Quem olha |
|---|---|---|
| Diária | Faixas de atraso, PDD por faixa e por subclasse, índice de subordinação, concentração do atraso, conciliação com a registradora e com o agente de cobrança | Risco e operações |
| Semanal | Entrada em atraso, recompras e substituições da semana, sacados com primeira parcela em atraso, alertas de tendência | Gestão e risco |
| Mensal | Roll rates, análise de safra, perda líquida, cobertura da PDD e da subordinação, revisão dos critérios de elegibilidade e da política de crédito | Comitê de crédito e risco |
| Eventual | Recuperação judicial de sacado ou cedente, fraude suspeita, rompimento de índice de subordinação | Diretores, com administrador e, se for o caso, cotistas |
Erros comuns
- Olhar só o índice total. A carteira cresce, o índice cai, e a inadimplência em valor dobrou.
- Contar recompra como cura. O sacado não pagou; o cedente pagou. O risco de crédito virou risco de cedente.
- Calcular roll rate com saldos agregados. Só a carteira título a título permite saber o que migrou.
- Provisionar por faixa uma vez por mês. A cota fica errada nos outros dias e o índice de subordinação também.
- Baixar como perda tarde demais. A faixa acima de 180 dias vira depósito de títulos mortos e o índice de atraso para de informar.
- Separar os relatórios. Atraso em um, PDD em outro, subordinação em um terceiro; ninguém vê o encadeamento.
Checklist de acompanhamento da inadimplência
Dados, indicadores e ação
Dados
- Carteira título a título com data de vencimento, dias de atraso, cedente, sacado, valor presente e evento de saída (pagamento, recompra, renegociação, baixa).
- Conciliação diária com a registradora e com o relatório do agente de cobrança.
- Critério de provisão por faixa escrito, aplicado diariamente e coerente com o administrador.
Indicadores
- Faixas de atraso, atraso acima de 90 dias e concentração do atraso, diários.
- Roll rates, taxa de entrada em atraso, safras e perda líquida, mensais.
- Recompras e substituições por cedente, semanais.
- Cobertura da PDD e da subordinação apuradas no mesmo relatório que as faixas.
Ação
- Sinais antecipados com alerta e dono: migração, recompras, primeira parcela, prazo médio, safra.
- Política de baixa como perda com prazo definido e aplicada.
- Rompimento de índice de subordinação tratado como ocorrência, com comunicação e plano.
- Relatórios gravados com data, por subclasse, reprocessáveis.
Perguntas frequentes sobre inadimplência em FIDCs
Como se mede a inadimplência de um FIDC?
Pelo valor dos direitos creditórios vencidos em cada faixa de dias de atraso sobre a carteira, com o corte de 90 dias como referência de inadimplência caracterizada. O índice de faixa é uma fotografia; a leitura completa exige os fluxos: migração entre faixas (roll rates), taxa de entrada em atraso, análise de safra, recompras e perda líquida, e a ligação com a cobertura da PDD e da subordinação.
Quais são as faixas de atraso usadas em FIDCs?
A segmentação mais comum separa a carteira a vencer e os vencidos em 1 a 30, 31 a 60, 61 a 90, 91 a 180 e acima de 180 dias de atraso. Cada faixa tem uma probabilidade histórica de virar perda, que alimenta a provisão para devedores duvidosos pelo critério contábil do fundo; o regulamento e a política de cada FIDC definem a segmentação e os percentuais.
O que é roll rate em FIDC?
É a taxa de migração entre faixas de atraso: o valor que passou de uma faixa para a seguinte em um mês sobre o valor que estava naquela faixa no mês anterior. O roll rate antecipa o índice de atraso do mês seguinte e mostra se a carteira está curando ou deteriorando. Só pode ser calculado com a carteira título a título, não a partir de saldos agregados.
Recompra pelo cedente reduz a inadimplência?
Reduz o índice, não o risco. Quando o cedente recompra ou substitui um título em atraso, o sacado não pagou; o cedente pagou por ele, e o risco de crédito virou risco de cedente, que depende do caixa do cedente. Recompras sistemáticas mascaram a qualidade da carteira e precisam ser medidas por cedente e tratadas como sinal de alerta.
Como a inadimplência afeta o índice de subordinação?
Quando a provisão reconhece a migração dos títulos para faixas de maior atraso, o patrimônio da classe cai e a perda é absorvida primeiro pelas cotas subordinadas, reduzindo o índice de subordinação. Por isso faixas de atraso, PDD e subordinação precisam ser apurados no mesmo relatório: a pergunta final é se a perda esperada cabe no colchão da subordinada antes de tocar a sênior.
O que é análise de safra em FIDC?
É o acompanhamento da inadimplência acumulada de cada grupo de títulos pelo mês em que foram cedidos ao fundo, comparando safras em idades iguais. Ela separa a carteira antiga da nova e mostra se a qualidade da originação piorou, o que o índice total esconde quando a carteira cresce.
Com que frequência acompanhar a inadimplência de um FIDC?
Diariamente para faixas de atraso, PDD, índice de subordinação e concentração do atraso, conciliados com a registradora e o agente de cobrança; semanalmente para entrada em atraso, recompras e sacados com primeira parcela vencida; mensalmente para roll rates, safras, perda líquida e cobertura; e imediatamente diante de recuperação judicial de sacado ou cedente, suspeita de fraude ou rompimento do índice de subordinação.
Veja a curva antes de o informe mostrar o número.
Traga as carteiras dos seus FIDCs. Em uma demonstração, mostramos faixas, roll rates, safras, recompras e cobertura da subordinação apurados título a título e por subclasse, com os alertas de tendência e a trilha auditável de cada apuração.
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