CVM 175 & Regulatório Guia

Lei 14.754/2023: o que mudou na tributação de fundos

A Lei 14.754, de 12 de dezembro de 2023, reescreveu a tributação dos fundos de investimento no Brasil a partir de 2024: levou o come-cotas aos fundos fechados, criou a figura da entidade de investimento para separar quem fica de fora, reorganizou os regimes próprios de FIA, FII, Fiagro, FIP, FIDC e ETF e tratou o estoque acumulado até 2023. Este guia organiza o mapa completo e mostra quais decisões a lei deixou na mão da gestora, e como documentá-las.

Bruno Haas

CEO · Fundsys

Pablo Brenner

CTO · Fundsys

· 11 min de leitura

Os três capítulos da lei

A Lei 14.754/2023 tem três partes. A primeira trata da tributação de rendimentos no exterior de pessoas físicas residentes no Brasil (aplicações financeiras, entidades controladas e trusts), regulamentada pela Receita Federal pela Instrução Normativa 2.180/2024. A segunda trata dos rendimentos de aplicações em fundos de investimento no país, e é o objeto deste post. A terceira reúne disposições finais. Para a gestora, o segundo capítulo mudou quatro coisas: quem paga imposto periodicamente, quem fica fora, como se classifica o fundo para saber de que lado ele está e quem responde pelo recolhimento.

Antes da lei, o fundo fechado era um cofre com prazo indeterminado: o imposto só saía quando a porta abria. A lei instalou um relógio no cofre, que cobra duas vezes por ano, e deixou sem relógio apenas os cofres que ela mesma listou.

O que mudou para os fundos

1. Come-cotas nos fundos fechados

Desde 1º de janeiro de 2024, os fundos fechados do regime geral estão sujeitos à incidência periódica do imposto de renda no último dia útil de maio e de novembro, à alíquota de 15% para carteiras de longo prazo e 20% para as de curto prazo, com a alíquota complementar da tabela regressiva cobrada na amortização, no resgate ou na distribuição de rendimentos. Isso alcançou os fundos exclusivos e reservados que eram o alvo principal da mudança. A mecânica, o exemplo de cálculo e os controles do evento estão em come-cotas: como funciona e como controlar na operação.

2. A entidade de investimento

A lei criou um critério para separar os fundos que são veículos de investimento profissional dos que são estruturas de diferimento: a entidade de investimento, definida no art. 23, com requisitos regulamentados pelo Conselho Monetário Nacional que envolvem, em linhas gerais, estrutura de gestão profissional com poder de decisão sobre os ativos e discricionariedade na gestão. FIP, FIDC e ETF de renda variável classificados como entidade de investimento ficam fora do come-cotas, com tributação na amortização, no resgate ou na distribuição; os que não se classificam pagam 15% em maio e novembro, com controle em subconta da variação das participações societárias.

3. Regimes próprios preservados ou criados

Fundos de ações continuam sem come-cotas, com 15% no resgate, e a lei manteve a exigência de proporção mínima em ações para a classificação. FII e Fiagro seguem com regime próprio e isenção dos rendimentos distribuídos a pessoas físicas, mas a lei alterou requisitos, entre eles o número mínimo de cotistas. ETF de renda fixa, FIP-IE, FIP-PD&I e fundos de debêntures incentivadas mantiveram regimes específicos.

4. Fundos de fundos

Um fundo que aplica ao menos 95% do patrimônio em veículos com regime próprio (FIA, FII, Fiagro, FIP, FIDC e ETF de renda variável qualificados como entidade de investimento, FIP-IE, FIP-PD&I e fundos de debêntures incentivadas) recebe o mesmo tratamento, sem come-cotas. O percentual é um limite de carteira, apurado como qualquer outro.

5. O estoque de 2023

Para os fundos que entraram no regime periódico, a diferença positiva entre o valor patrimonial da cota em 31 de dezembro de 2023 e o custo de aquisição foi tributada em regra a 15%, com pagamento à vista em maio de 2024 ou em até 24 parcelas corrigidas pela Selic, e com a alternativa, para pessoa física residente, de antecipação a 8% em parcelas entre dezembro de 2023 e março de 2024. A transição acabou; o registro da opção de cada cotista no cadastro de custo, não.

6. Investidor não residente

Investidores não residentes fora de jurisdições de tributação favorecida ficaram fora do come-cotas, com regime próprio. A redação gerou discussões sobre o alcance em fundos com cotistas exclusivamente não residentes, tema que segue dependendo de interpretação.

7. O administrador como responsável tributário

A lei definiu o administrador fiduciário como responsável pela retenção e pelo recolhimento do imposto, mesmo com a divisão de responsabilidades da Resolução CVM 175. Isso não tira a gestora do processo: as classificações que definem o regime nascem na carteira que ela gere.

VeículoRegime após a Lei 14.754/2023Decisão ou controle que cabe à gestora
Fundos abertos do regime geralCome-cotas de 15% ou 20%; tabela regressivaPrazo médio da carteira para a classificação de longo prazo
Fundos fechados do regime geralCome-cotas desde 2024, com complementar na amortização e no resgatePrazo médio; caixa para maio e novembro; custo de aquisição após amortizações
Fundos de açõesSem come-cotas; 15% no resgateProporção mínima em ações apurada diariamente
FII e FiagroRegime próprio; isenção para pessoa física sob requisitosNúmero de cotistas e demais condições da isenção
FIP, FIDC e ETF de renda variávelEntidade de investimento: sem come-cotas; caso contrário, 15% periódico com subcontaAnálise documentada dos critérios de entidade de investimento; revisão a cada mudança de política ou governança
ETF de renda fixa, FIP-IE, FIP-PD&I, FI-InfraRegimes própriosManutenção dos requisitos de cada regime
Fundos de fundosTratamento do investido se ao menos 95% em veículos com regime próprioLimite de 95% apurado diariamente
Investidor não residenteRegime próprio fora de jurisdição favorecidaCadastro de jurisdição do cotista com o administrador
Conteúdo tributário envelhece

Este mapa reflete a lei e a regulamentação conhecidas até agosto de 2026. Critérios como o de entidade de investimento e os requisitos de isenção dependem de atos infralegais e de interpretação da Receita Federal. Confirme cada classificação com a assessoria tributária e com o administrador, que é o responsável tributário, antes de decidir.

O que a gestora decide e documenta

A lei parece assunto do administrador, mas cinco decisões que definem o imposto do cotista dependem da carteira, e a carteira é da gestora. Cada uma precisa de um documento e de um controle.

  1. Entidade de investimento. Para FIP, FIDC e ETF de renda variável, a análise dos critérios legais e regulamentares precisa ser escrita, aprovada e revisada sempre que a política de investimento ou a estrutura de gestão mudar. É a decisão de maior impacto: coloca o fundo dentro ou fora do come-cotas.
  2. Longo ou curto prazo. O prazo médio da carteira é apurado diariamente; abaixo de 365 dias, a alíquota muda para todos os cotistas. Um limite como qualquer outro, com alerta.
  3. Classe de ações. A proporção mínima em ações e ativos equiparados é o que afasta o come-cotas; a apuração é diária e o rompimento tem consequência tributária imediata.
  4. Fundo de fundos. O limite de 95% em veículos com regime próprio precisa estar no motor de limites.
  5. Isenção de FII e Fiagro. O número de cotistas e as demais condições são monitorados com o administrador e o escriturador, com alerta antes do rompimento.

Todas elas são enquadramentos, e seguem o mesmo processo dos limites regulatórios, descrito em desenquadramento passivo x ativo: prazos e plano de ação: apuração diária por classe, classificação da causa, plano e evidência.

Erros comuns

  1. Tratar a lei como assunto só do administrador. Ele recolhe; a gestora define, pela carteira, o regime.
  2. Entidade de investimento sem análise escrita. A classificação existe na cabeça de alguém e não resiste a uma pergunta da Receita ou do auditor.
  3. Prazo médio monitorado no fechamento do mês. A classificação é diária; um mês de descuido muda o imposto de todos os cotistas.
  4. Custo de aquisição sem a transição de 2023. A opção pelo estoque a 15% ou 8% não refletida no cadastro produz base errada em todos os eventos seguintes.
  5. Fundo de fundos a 94%. A alocação mínima não está no motor de limites e o tratamento se perde sem que ninguém perceba.
  6. Regulamento e regime incoerentes. A política de investimento permite ativos que descaracterizam o regime que a lâmina anuncia.

Checklist da Lei 14.754/2023 para a gestora

Classificações, controles e documentação

Classificação de cada classe

  • Regime tributário documentado: geral, ações, regime próprio ou entidade de investimento, com base legal e data.
  • Análise de entidade de investimento escrita e aprovada para FIP, FIDC e ETF de renda variável, revisada a cada mudança.
  • Coerência entre política de investimento, regulamento, lâmina e regime declarado.

Controles diários

  • Prazo médio da carteira nas classes de longo prazo, com alerta antes de 365 dias.
  • Proporção mínima em ações nas classes de ações.
  • Alocação mínima de 95% nos fundos de fundos com regime próprio.
  • Requisitos de isenção de FII e Fiagro monitorados com o administrador.

Operação e cadastro

  • Caixa projetado para o come-cotas de maio e novembro nas classes sujeitas.
  • Custo de aquisição por cotista atualizado, inclusive pela opção do estoque de 2023.
  • Jurisdição dos investidores não residentes cadastrada com o administrador.

Perguntas frequentes sobre a Lei 14.754/2023

O que a Lei 14.754/2023 mudou na tributação de fundos?

A partir de 2024, estendeu o come-cotas aos fundos fechados do regime geral, criou a figura da entidade de investimento para definir quais FIP, FIDC e ETF de renda variável ficam fora da incidência periódica, manteve ou ajustou os regimes próprios de fundos de ações, FII, Fiagro, ETF de renda fixa, FIP-IE, FIP-PD&I e fundos de debêntures incentivadas, estendeu o tratamento aos fundos de fundos com ao menos 95% nesses veículos, tratou o estoque acumulado até 2023 e definiu o administrador fiduciário como responsável tributário.

O que é entidade de investimento na Lei 14.754/2023?

É a classificação, prevista no art. 23 da lei e regulamentada pelo Conselho Monetário Nacional, que identifica fundos com estrutura de gestão profissional, poder de decisão sobre os ativos e discricionariedade na gestão. FIP, FIDC e ETF de renda variável classificados como entidade de investimento ficam fora do come-cotas, com tributação na amortização, no resgate ou na distribuição; os demais pagam 15% em maio e novembro, com controle em subconta das participações societárias.

Fundos exclusivos passaram a pagar come-cotas?

Sim. Os fundos fechados do regime geral, incluindo fundos exclusivos e reservados, passaram a ter incidência periódica do imposto no último dia útil de maio e de novembro desde 2024, a 15% ou 20% conforme o prazo médio da carteira, com a alíquota complementar da tabela regressiva na amortização ou no resgate. O estoque acumulado até 31 de dezembro de 2023 foi tributado pela regra de transição.

Fundos de ações pagam come-cotas após a Lei 14.754?

Não. Os fundos de ações continuam fora da incidência periódica, com imposto de 15% no resgate, desde que mantenham a proporção mínima de ações e ativos equiparados exigida para a classificação. A gestora precisa apurar essa proporção diariamente, porque o rompimento muda o regime tributário de todos os cotistas.

Como foi tributado o estoque de rendimentos acumulados até 2023?

A diferença positiva entre o valor patrimonial da cota em 31 de dezembro de 2023 e o custo de aquisição foi tributada, em regra, a 15%, com pagamento à vista até maio de 2024 ou em até 24 parcelas corrigidas pela Selic. Pessoas físicas residentes puderam antecipar o pagamento a 8%, em parcelas entre dezembro de 2023 e março de 2024. A opção de cada cotista precisa estar refletida no cadastro de custo de aquisição.

Quem é o responsável por reter o imposto dos fundos?

O administrador fiduciário, definido pela Lei 14.754/2023 como responsável tributário pelo fundo, mesmo com a divisão de responsabilidades entre gestor e administrador estabelecida pela Resolução CVM 175. A gestora responde pelas classificações que decorrem da carteira, como o prazo médio, a proporção em ações e a análise de entidade de investimento.

O que muda para fundos de fundos com a Lei 14.754?

Um fundo que aplica ao menos 95% do patrimônio em veículos com regime próprio, como FIA, FII, Fiagro, FIP, FIDC e ETF de renda variável qualificados como entidade de investimento, FIP-IE, FIP-PD&I e fundos de debêntures incentivadas, recebe o mesmo tratamento e fica fora do come-cotas. O percentual funciona como um limite de carteira e precisa ser apurado diariamente.

Entidade de investimento, prazo médio, ações e 95%: decididos uma vez, apurados todos os dias.

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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a leitura das normas citadas nem a assessoria jurídica da sua instituição. Prazos, números de artigos e entendimentos das áreas técnicas foram verificados em agosto de 2026 e são revisados trimestralmente; alterações posteriores podem não estar refletidas.