CVM 175 & Regulatório Satélite

Classes e subclasses na CVM 175: como estruturar e controlar

A Resolução CVM 175 trocou o par fundo-carteira por três níveis: o fundo, que é a casca; a classe, que tem patrimônio segregado, política própria e CNPJ; e a subclasse, que compartilha a carteira da classe e se diferencia por público, prazos e taxas. Estruturar bem é saber o que cada nível pode ter de diferente e o que precisa ficar em comum; controlar bem é apurar cada coisa no nível certo. Este post cobre as duas metades.

Bruno Haas

CEO · Fundsys

Pablo Brenner

CTO · Fundsys

· 10 min de leitura

Três níveis, três funções

O art. 5º da Parte Geral da Resolução CVM 175 permite que o regulamento preveja diferentes classes de cotas, com direitos e obrigações distintos, e obriga o administrador a constituir um patrimônio segregado para cada classe. Dentro de cada classe podem existir subclasses. A estrutura multiclasse pôde ser usada a partir de 1º de outubro de 2024, prazo fixado pela Res. CVM 200/24; até então, os fundos novos nasciam em classe única, o que continua sendo possível.

NívelO que éIdentificaçãoDocumento
FundoCondomínio de natureza especial que abriga as classes; onde se definem prestadores essenciais, assembleia e regras comunsCNPJ próprio; não é investível diretamenteRegulamento (parte comum)
ClassePatrimônio segregado com política de investimento, limites, encargos e cota próprios; aberta ou fechadaCNPJ próprioAnexo descritivo da classe
SubclasseRecorte da classe que compartilha a mesma carteira e se diferencia por público, prazos e taxasCódigo de identificação; sem CNPJApêndice da subclasse

O fundo é o prédio, a classe é o apartamento com escritura própria e a subclasse é o contrato de cada morador do mesmo apartamento: o imóvel é o mesmo, o aluguel e as regras de entrada e saída podem ser diferentes.

O que cada nível pode ter de diferente

Entre classes

Tudo o que diz respeito à carteira: política de investimento, limites, fatores de risco, público-alvo, condomínio aberto ou fechado, encargos, prazos, responsabilidade limitada. O que não pode: classes de categorias diferentes no mesmo fundo (todas seguem o mesmo Anexo Normativo) e classe que altere o tratamento tributário do fundo ou das demais classes. Como cada classe tem patrimônio próprio, o que acontece em uma não contamina a outra: um passivo, um desenquadramento ou uma insolvência ficam contidos na classe.

Entre subclasses

Aqui a lista é fechada. Subclasses só podem se diferenciar por público-alvo, prazos e condições de aplicação, amortização e resgate e taxas de administração, gestão, máxima de distribuição, ingresso e saída. Tudo o mais é comum, porque a carteira é uma só. A exceção são as subclasses de classes restritas, destinadas exclusivamente a investidores qualificados ou profissionais, que podem se diferenciar também por outros direitos econômicos e políticos; é o caso das cotas sênior, mezanino e subordinada dos FIDCs, que são subclasses com ordem de subordinação distinta.

AtributoPode variar entre classes?Pode variar entre subclasses?
Política de investimento e limitesSimNão; a carteira é a mesma
Categoria (Anexo Normativo)Não; todas as classes na mesma categoriaNão
Público-alvoSimSim
Prazos de aplicação, cotização, resgate e amortizaçãoSimSim
Taxas de administração, gestão, distribuição, ingresso e saídaSimSim
Aberta ou fechadaSimNão; segue a classe
Responsabilidade limitadaSim, por classeNão; segue a classe
Direitos econômicos e políticos adicionais (subordinação, voto)SimSó em classes restritas
Tratamento tributárioNão pode ser alterado por classeNão

Regulamento, anexos e apêndices

A estrutura em três níveis se espelha no documento. O regulamento traz as regras gerais do fundo, aplicáveis a todas as classes e subclasses; cada anexo descritivo traz as condições da carteira de uma classe e as regras comuns às suas subclasses; cada apêndice traz o que é próprio de uma subclasse. Isso muda quem altera o quê: uma mudança de limite é alteração de anexo; uma mudança de taxa de uma subclasse é alteração de apêndice; uma mudança de administrador é alteração do regulamento. Cada camada tem data de vigência própria e precisa ser versionada separadamente, porque o controle lê limites do anexo e taxas do apêndice.

Quando usar cada estrutura

ObjetivoEstruturaPor quê
Mesma estratégia para varejo, qualificados e institucionais, com taxas e prazos diferentesUma classe, várias subclassesSubstitui a cadeia master-feeder por uma carteira só, com cota por subclasse
Estratégias diferentes sob a mesma marca e os mesmos prestadoresVárias classesPatrimônios segregados, limites que não se cruzam, um só registro de fundo
FIDC com sênior, mezanino e subordinadaClasse restrita com subclassesOrdem de subordinação como direito econômico distinto
Fundo exclusivo ou reservado simplesClasse únicaMenos documentos, menos cadastros, sem perda de proteção
Estratégia com investimento no exterior ao lado de uma domésticaDuas classesFatores de risco, limites e público distintos, sem contaminação

O que o controle apura em cada nível

O erro operacional mais comum das estruturas multiclasse é apurar no nível errado. A regra é simples: o que depende da carteira se apura na classe; o que depende de taxa, prazo ou público se apura na subclasse; o que depende de prestadores e assembleia fica no fundo.

ApuraçãoNívelObservação
Limites por emissor e por modalidadeClasseSobre o patrimônio da classe; nunca somando classes
Exposição a risco de capital e margemClasseLimite do anexo da classe
VaR, estresse e liquidez do ativoClasseCarteira única por classe
Liquidez do passivoSubclasse, consolidada na classePrazos de resgate e concentração de cotistas diferem por subclasse
Provisão de taxas e cotaSubclasseTaxas diferentes produzem cotas diferentes sobre a mesma carteira
PLClasse, pela soma das subclassesCota da classe é gerencial quando há subclasses
Informes à CVM e cadastro ANBIMAClasse e subclasseInforme diário por classe com identificação de subclasse; CNPJ da classe como chave
Enquadramento tributárioClassePrazo médio e proporção em ações são da carteira
Assembleia e prestadoresFundo (ou classe, conforme a matéria)Matérias de classe deliberadas pelos cotistas daquela classe

Os limites por classe estão em limites de concentração na CVM 175; a cota por subclasse, com exemplo numérico, em fechamento de cota e cálculo de PL.

Erros comuns

  1. Diferenciar subclasses pelo que a norma não permite. Política ou limite diferente entre subclasses da mesma classe não existe; isso é caso de duas classes.
  2. Somar classes no enquadramento. Limite apurado sobre o fundo inteiro em vez de cada classe.
  3. Taxa única para todas as subclasses. A cota publicada fica errada em todas.
  4. Versionar só o regulamento. Anexos e apêndices mudam em datas próprias; o controle precisa ler a versão certa de cada camada.
  5. Cadastro com chave errada. Informes e arquivos de posição usam o CNPJ da classe e o código da subclasse; usar o CNPJ do fundo quebra a conciliação.
  6. Classe que muda o regime tributário. A vedação é expressa e o erro atinge os cotistas das demais classes.

Checklist de estrutura e controle

Antes de criar classes e subclasses

Desenho

  • Cada diferença entre subclasses cabe na lista do art. 5º (público, prazos, taxas); o que não cabe virou classe.
  • Todas as classes pertencem à mesma categoria e nenhuma altera o tratamento tributário.
  • Responsabilidade limitada e condomínio aberto ou fechado definidos por classe.
  • Regulamento, anexos e apêndices escritos com data de vigência própria.

Cadastro

  • CNPJ de cada classe e código de cada subclasse cadastrados na CVM, no HUB ANBIMA, no administrador e no sistema da gestora, iguais.
  • Arquivo de Posição 5.0 recebido por classe ou subclasse conforme a estrutura.

Controle

  • Limites, risco de capital, VaR e liquidez do ativo apurados por classe.
  • Taxas, cota e liquidez do passivo apurados por subclasse.
  • PL da classe conciliado com a soma das subclasses; cota gerencial fora do PL.
  • Alterações de anexo e apêndice chegando ao controle na data de vigência.

Perguntas frequentes sobre classes e subclasses

Qual é a diferença entre classe e subclasse na CVM 175?

A classe tem patrimônio segregado, política de investimento, limites, encargos, cota e CNPJ próprios, e pode ser aberta ou fechada. A subclasse pertence a uma classe, compartilha a mesma carteira e só pode se diferenciar por público-alvo, prazos e condições de aplicação, amortização e resgate e taxas de administração, gestão, máxima de distribuição, ingresso e saída; ela não tem CNPJ, e sim um código de identificação.

O que uma subclasse pode ter de diferente da outra?

Pelo art. 5º da Parte Geral da Resolução CVM 175, apenas o público-alvo, os prazos e condições de aplicação, amortização e resgate e as taxas de administração, gestão, máxima de distribuição, ingresso e saída. Subclasses de classes restritas, destinadas exclusivamente a investidores qualificados ou profissionais, podem se diferenciar também por outros direitos econômicos e políticos, como a ordem de subordinação nos FIDCs.

Um fundo pode ter classes de categorias diferentes?

Não. Todas as classes de um fundo devem pertencer à mesma categoria, ou seja, ao mesmo Anexo Normativo da Resolução CVM 175, e é vedada a criação de classe que altere o tratamento tributário aplicável ao fundo ou às demais classes.

Cada classe de cotas tem CNPJ?

Sim. O fundo e cada classe têm CNPJ próprio; a subclasse não tem CNPJ, e sim um código de identificação vinculado à classe. Os informes à CVM e os arquivos de posição passaram a usar o CNPJ da classe como chave, com a identificação da subclasse quando houver.

Desde quando é possível criar classes e subclasses?

A estrutura multiclasse pôde ser utilizada a partir de 1º de outubro de 2024, prazo fixado pela Resolução CVM 200. Antes disso, os fundos constituídos sob a Resolução CVM 175 nasciam em classe única, o que continua sendo possível, inclusive com subclasses.

Como se apura o enquadramento em um fundo com várias classes?

Por classe, sobre o patrimônio segregado de cada uma, nunca somando classes. Limites por emissor e por modalidade, exposição a risco de capital, VaR, estresse e liquidez do ativo são apurados na classe; taxas, cota e liquidez do passivo, na subclasse; o PL da classe é a soma das subclasses, e a cota da classe é apenas gerencial quando há subclasses.

Como fica o regulamento em um fundo com classes e subclasses?

O regulamento traz as regras gerais do fundo, aplicáveis a todas as classes e subclasses; cada classe tem um anexo descritivo com as condições da carteira e as regras comuns às suas subclasses; cada subclasse tem um apêndice com o que lhe é próprio. Cada camada tem data de vigência própria e precisa ser versionada separadamente.

Cada apuração no nível certo, com a versão certa do anexo e do apêndice.

Traga os regulamentos das suas estruturas multiclasse. Em uma demonstração, mostramos limites e risco por classe, cota e taxas por subclasse, PL conciliado e o versionamento de cada camada do regulamento, com a trilha auditável de cada apuração.

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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a leitura das normas citadas nem a assessoria jurídica da sua instituição. Prazos, números de artigos e entendimentos das áreas técnicas foram verificados em agosto de 2026 e são revisados trimestralmente; alterações posteriores podem não estar refletidas.