Risco Metodologia

Fatores Primitivos de Risco (FPR): o que são e como calcular

Uma carteira com duzentos ativos não tem duzentos riscos; tem uma dúzia. Curva de juros prefixada, cupom cambial, inflação implícita, dólar, índice de ações, spreads de crédito, volatilidades: esses são os Fatores Primitivos de Risco, e quase tudo o que um fundo carrega é uma combinação deles. Decompor a carteira em FPRs é o passo que torna VaR, estresse e risco de capital calculáveis e comparáveis entre classes. Este post explica o que são, como mapear cada instrumento, como medir sensibilidades e o que fazer com o vetor de exposições que sai do outro lado.

Bruno Haas

CEO · Fundsys

Pablo Brenner

CTO · Fundsys

· 10 min de leitura

O que são Fatores Primitivos de Risco

Fator primitivo de risco é uma variável de mercado cuja variação explica a variação de preço de um conjunto de instrumentos. O termo é usado pela B3 no seu modelo de risco para cálculo de margem, que divulga cenários por FPR, e foi adotado pela indústria de fundos para a mesma finalidade: reduzir uma carteira heterogênea a um vetor de exposições sobre um número pequeno de variáveis com histórico observável. Um título prefixado, um contrato futuro de DI e um swap pré-CDI são instrumentos diferentes; o fator de risco é o mesmo, a curva prefixada, e é sobre ela que existe histórico para estimar volatilidade e correlação.

Os FPRs são as cores primárias do risco: com meia dúzia delas, misturadas em proporções diferentes, pinta-se qualquer carteira. Medir o risco de cada quadro é medir quanto de cada cor ele tem.

FamíliaFatores típicosInstrumentos que dependem deles
Juros prefixadosCurva pré por vértice (21, 63, 126, 252, 504, 756, 1.260, 2.520 dias úteis, por exemplo)LTN, NTN-F, DI futuro, swaps pré-CDI, CDBs e debêntures prefixados
Juros reais e inflaçãoCurva de juro real (NTN-B) por vértice; inflação implícitaNTN-B, debêntures IPCA+, DAP, swaps IPCA
Cupom cambial e câmbioCurva de cupom cambial por vértice; taxa de câmbio à vistaDólar futuro, NDF, swaps cambiais, ativos no exterior
Ações e índicesIbovespa e outros índices; fator idiossincrático por ação, ou betaAções, ETFs, índice futuro, opções sobre índice e ações
Spreads de créditoSpread por faixa de rating, setor ou emissor sobre a curva de referênciaDebêntures, CRIs, CRAs, FIDCs, títulos bancários
VolatilidadesVol implícita por ativo-objeto e prazoOpções e estruturas com opcionalidade
Commodities e outrosPreços de commodities, índices de fundos investidos, criptoativosDerivativos agrícolas, cotas de fundos, ativos digitais

Como mapear cada instrumento

O mapeamento responde, para cada posição, a três perguntas: de quais fatores o preço depende, quanto o preço muda quando cada fator muda uma unidade (a sensibilidade) e em qual vértice essa sensibilidade se concentra, quando o fator é uma curva.

Sensibilidades

  • DV01 (ou PV01): variação de valor para um deslocamento de um ponto-base na curva; é a sensibilidade dos instrumentos de juros.
  • Delta: variação de valor para uma variação unitária no preço do ativo-objeto; para ações, o próprio valor da posição vezes o beta em relação ao índice.
  • Exposição cambial: valor da posição convertido pela taxa à vista; sinal conforme comprado ou vendido.
  • Spread duration: variação de valor para um ponto-base de abertura de spread, nos títulos de crédito.
  • Vega e gama: sensibilidades à volatilidade e à curvatura, nas opções; onde elas são relevantes, a sensibilidade linear não basta e a reprecificação completa é necessária.

Vértices e interpolação

Uma curva é contínua; o histórico existe em vértices. Um fluxo que vence entre dois vértices tem sua sensibilidade repartida entre eles de forma a preservar valor e risco, normalmente por interpolação linear no prazo ou por métodos que preservam a variância. O critério precisa estar na política e ser o mesmo todos os dias, porque mudar o método muda o VaR sem que a carteira tenha mudado.

Exemplo numérico

Uma classe tem uma posição prefixada com valor presente de R$ 10 milhões e vencimento em 400 dias úteis, com a curva em torno de 12% ao ano. A sensibilidade aproximada é de R$ 1.417 por ponto-base (valor presente vezes o prazo em anos, dividido por um mais a taxa, vezes 0,0001). Os vértices vizinhos são 252 e 504 dias úteis; por interpolação linear no prazo, 41% da sensibilidade vai para o vértice de 252 e 59% para o de 504.

PosiçãoFatorVérticeSensibilidade
Pré 400 dias úteis, R$ 10 milhõesCurva pré252 duR$ 585 por ponto-base
Pré 400 dias úteis, R$ 10 milhõesCurva pré504 duR$ 832 por ponto-base
Ações, R$ 20 milhões, beta 1,1IbovespaÀ vistaR$ 22 milhões de exposição equivalente
Dólar futuro, vendido R$ 8 milhõesCâmbioÀ vista− R$ 8 milhões de exposição cambial
Debênture IPCA+, R$ 15 milhões, spread duration 3,2Juro real e spread de crédito756 duR$ 4.800 por ponto-base de spread; DV01 real equivalente

Somando todas as posições, a classe vira um vetor de exposições: uma sensibilidade por fator e vértice. É esse vetor, e não a lista de ativos, que entra nos cálculos seguintes.

O que o vetor de exposições alimenta

UsoComo o vetor é usadoOnde está detalhado
VaR paramétricoPerda igual ao quantil vezes a raiz do produto do vetor pela matriz de covariância dos fatores e pelo vetorValue at Risk: o guia definitivo
VaR histórico e simulaçãoVariações históricas ou simuladas de cada fator aplicadas ao vetor, com reprecificação para não linearesIdem
Teste de estresseChoques por fator e vértice, combinados, aplicados ao vetorStress test em fundos
Exposição a risco de capitalMargens exigidas por fator, inclusive de fundos investidos, consolidadas contra o limite do Anexo IO que a CVM 175 exige em gestão de risco
Limites de exposição do regulamentoExposição cambial, a juros, a ações e a crédito comparadas com os tetos por classeLimites de concentração na CVM 175
Atribuição de riscoContribuição de cada fator ao VaR total, para saber de onde vem o riscoRelatório mensal de risco

O que faz o mapeamento ser bom

  • Cobertura: todo ativo tem fatores atribuídos; o que não tem é uma lacuna que aparece como risco zero.
  • Granularidade compatível com a carteira: uma carteira de crédito precisa de spreads por rating ou emissor; uma carteira de juros, de vértices suficientes para capturar inclinação.
  • Histórico limpo por fator, com tratamento de feriados, vértices que mudam de prazo e séries interrompidas.
  • Look-through de fundos investidos, ou proxy declarada quando a carteira do fundo investido não está disponível.
  • Reprecificação completa onde a não linearidade importa.
  • Consistência diária: mesmo método, mesmos vértices, mesma matriz; mudanças documentadas com data.

Erros comuns

  1. Ativo sem fator. Um CRA ou uma cota de fundo entra sem mapeamento e o sistema o trata como caixa.
  2. Crédito mapeado só em juros. Sem o fator spread, a debênture parece um título público.
  3. Vértices demais ou de menos. Dois vértices para uma carteira de juros escondem a inclinação; cinquenta vértices com histórico ruim produzem matriz instável.
  4. Interpolação que muda com o dia. O VaR oscila por método, não por mercado.
  5. Opções tratadas por delta. A perda em crise está no gama e no vega.
  6. Fundo investido como um fator só. A cota do fundo investido esconde os fatores de dentro dele.

Checklist de mapeamento em FPR

Política, mapeamento e evidência

Política

  • Lista de fatores e vértices escrita, com justificativa e data da última revisão.
  • Método de interpolação e de cálculo das sensibilidades definido.
  • Critério de look-through ou proxy para fundos investidos.

Mapeamento

  • Todo ativo da carteira tem fatores atribuídos; lista de exceções vazia ou justificada.
  • Títulos de crédito mapeados em juros e em spread.
  • Posições com opcionalidade reprecificadas por completo nos cálculos de risco.
  • Histórico dos fatores tratado e versionado.

Evidência

  • Vetor de exposições por classe gravado diariamente com os parâmetros do dia.
  • Atribuição de risco por fator no relatório mensal.
  • Mudanças de método documentadas com data e impacto.

Perguntas frequentes sobre fatores primitivos de risco

O que são fatores primitivos de risco?

São variáveis de mercado cuja variação explica a variação de preço de um conjunto de instrumentos, como a curva de juros prefixada por vértice, o juro real e a inflação implícita, o cupom cambial e a taxa de câmbio, os índices de ações, os spreads de crédito e as volatilidades. O termo é usado pela B3 no seu modelo de risco para margem e foi adotado pela indústria de fundos para reduzir carteiras heterogêneas a um vetor de exposições com histórico observável.

Para que serve mapear a carteira em fatores de risco?

Para tornar o risco calculável e comparável: o vetor de exposições por fator e vértice alimenta o VaR paramétrico, histórico ou por simulação, o teste de estresse com choques combinados, a exposição a risco de capital e os limites de exposição do regulamento, além da atribuição de risco por fator no relatório mensal exigido pela política de gestão de risco da Resolução CVM 21.

O que é DV01?

É a variação de valor de uma posição para um deslocamento de um ponto-base na curva de juros, a sensibilidade básica dos instrumentos de renda fixa. Em uma posição prefixada, aproxima-se pelo valor presente multiplicado pelo prazo em anos, dividido por um mais a taxa e multiplicado por 0,0001; a sensibilidade é então repartida entre os vértices vizinhos da curva.

Como mapear um título entre dois vértices da curva?

Repartindo a sensibilidade entre os vértices vizinhos de forma a preservar valor e risco, normalmente por interpolação linear no prazo ou por métodos que preservam a variância. Um fluxo de 400 dias úteis, com vértices em 252 e 504, aloca cerca de 41% da sensibilidade ao vértice de 252 e 59% ao de 504 pela interpolação linear. O método precisa estar na política e ser o mesmo todos os dias.

Como mapear uma debênture em fatores de risco?

Em pelo menos dois fatores: a curva de referência (prefixada, de juro real ou de CDI, conforme a indexação) por vértice, e o spread de crédito por faixa de rating, setor ou emissor, com a spread duration como sensibilidade. Mapear a debênture só em juros faz com que ela pareça um título público e ignora o fator que mais se move em crise.

Como tratar opções no mapeamento de fatores?

As opções dependem do preço do ativo-objeto, da volatilidade implícita e do tempo, e sua sensibilidade não é linear. O delta captura o primeiro efeito, mas a perda em choques grandes está no gama e no vega; por isso, nos cálculos de VaR e de estresse, posições com opcionalidade relevante devem ser reprecificadas por completo sob os cenários, e não aproximadas por sensibilidade linear.

Como tratar fundos investidos no mapeamento?

Por look-through, mapeando a carteira do fundo investido em fatores como se fosse da própria classe, quando a composição está disponível; ou por uma proxy declarada na política, que atribui ao fundo investido os fatores que melhor explicam sua cota, quando não está. Tratar a cota do fundo investido como um fator único esconde os fatores que estão dentro dele.

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