Risco Metodologia

Backtesting de VaR e fator de escala de Basileia

Um VaR sem backtesting é uma opinião com casas decimais. O backtesting compara, dia a dia, a perda que o modelo previu com a perda que aconteceu, conta as vezes em que a realidade ultrapassou a previsão e responde se o modelo merece confiança. O Comitê de Basileia transformou essa contagem em um semáforo e em um fator de escala que penaliza modelos ruins, e a lógica serve a qualquer gestora que declare um VaR na política de risco. Este post mostra como fazer o teste, o que o semáforo significa, os testes estatísticos que o complementam e o que fazer quando o modelo falha.

Bruno Haas

CEO · Fundsys

Pablo Brenner

CTO · Fundsys

· 11 min de leitura

O que o backtesting responde

Um VaR de um dia a 99% de confiança promete que, em 99 dias de cada 100, a perda não vai superar o valor calculado. Em 250 dias úteis, portanto, o esperado são 2,5 exceções: dias em que a perda real excedeu o VaR previsto na véspera. O backtesting conta as exceções observadas e compara com as esperadas. Muitas exceções significam que o modelo subestima o risco; nenhuma exceção em anos pode significar que ele superestima, o que também custa, em capital ou em limite mal usado. A metodologia do VaR e suas variantes estão em Value at Risk: o guia definitivo para gestoras.

O VaR é a previsão do tempo; o backtesting é conferir, todo dia, se choveu quando o meteorologista disse que não ia chover. Um meteorologista que erra dez vezes por ano perde o emprego; um modelo, o fator de escala.

O semáforo de Basileia

O Comitê de Basileia definiu, para os bancos que usam modelos internos, um teste sobre os últimos 250 dias úteis com VaR de um dia a 99%. O número de exceções coloca o modelo em uma de três zonas, e a zona define o fator de escala multiplicado sobre o VaR para o cálculo de capital: 3 na zona verde, subindo até 4 na vermelha. Para uma gestora, não há capital regulatório em jogo, mas a lógica é diretamente aplicável: o fator de escala é uma forma disciplinada de ajustar o limite de VaR à qualidade demonstrada do modelo.

ZonaExceções em 250 diasFator de escalaLeitura
Verde0 a 43,00Compatível com um modelo correto a 99%
Amarela53,40Resultado possível tanto para modelo correto quanto para modelo com falha; exige investigação
Amarela63,50
Amarela73,65
Amarela83,75
Amarela93,85
Vermelha10 ou mais4,00Modelo muito provavelmente inadequado

As faixas vêm da probabilidade binomial: com 250 observações e 1% de probabilidade por dia, quatro ou menos exceções ocorrem com alta frequência em um modelo correto, enquanto dez ou mais são muito improváveis. A zona amarela existe porque, nesse intervalo, os dados não distinguem com segurança um modelo bom com azar de um modelo ruim com sorte.

Como fazer o teste

  1. Defina o par previsão e realização. O VaR calculado no fechamento de D-1 para o horizonte de um dia contra o resultado de D. Horizonte e confiança do teste precisam ser os mesmos da política.
  2. Escolha o P&L. O hipotético (ou limpo) reprecifica a carteira de D-1 com os preços de D, sem as operações do dia; é o teste correto do modelo. O efetivo (ou sujo) usa o resultado real da classe, com operações, taxas e receitas; é o teste do que o cotista viveu. Uma política madura acompanha os dois.
  3. Conte as exceções na janela (250 dias úteis é a convenção) e classifique a zona.
  4. Analise cada exceção: data, tamanho da perda contra o VaR, fatores responsáveis, se a carteira mudou, se houve evento de mercado. Uma exceção de 1,1 vez o VaR em dia de choque é diferente de uma de 3 vezes em dia comum.
  5. Aplique os testes estatísticos para separar azar de falha.
  6. Registre e reporte: resultado, zona, ações e a decisão sobre o modelo, no relatório mensal de risco.

Os testes estatísticos que complementam o semáforo

TesteO que verificaComo funcionaO que revela
Cobertura incondicional (Kupiec)Se a frequência de exceções é compatível com o nível de confiançaRazão de verossimilhança entre a proporção observada e a esperada, comparada a uma qui-quadrado com um grau de liberdadeSubestimação ou superestimação sistemática do risco
Independência (Christoffersen)Se as exceções ocorrem em sequênciaCompara a probabilidade de exceção após exceção com a de exceção após dia normalModelo que reage devagar: exceções agrupadas em crises
Cobertura condicionalFrequência e independência juntasSoma das duas estatísticas anterioresAvaliação combinada do modelo
Magnitude das exceçõesTamanho médio da perda além do VaRPerda excedente sobre o VaR nos dias de exceçãoCauda mais pesada do que a distribuição assumida

Exemplo numérico

Uma classe multimercado declara VaR de um dia a 99% e limite de 2% do PL. Nos últimos 250 dias úteis, o backtesting com P&L hipotético registrou sete exceções, cinco delas em duas semanas de março, com perdas entre 1,2 e 2,1 vezes o VaR previsto.

ItemResultadoLeitura
Exceções em 250 dias7 (esperado: 2,5)Zona amarela; fator de escala de 3,65
Teste de KupiecRejeita a cobertura de 99% ao nível de 5%Frequência incompatível com o modelo
Teste de independênciaRejeita a independênciaExceções agrupadas: o modelo não capturou a mudança de regime de março
Magnitude média1,6 vez o VaRCauda mais pesada que a assumida
AçãoJanela de volatilidade encurtada com ponderação recente; VaR de estresse passa a compor o limite; limite operacional reduzido pelo fator de escala até a próxima validaçãoDecisão documentada no relatório de risco

O diagnóstico importa mais do que a zona: sete exceções espalhadas ao longo do ano indicariam subestimação geral; sete exceções em duas semanas indicam um modelo lento para reagir a mudança de regime, o que pede ponderação recente na volatilidade ou um VaR de estresse ao lado do VaR normal. O desenho dos cenários está em stress test em fundos.

Como a gestora usa o fator de escala

Sem capital regulatório, o fator de escala vira uma regra de governança: o limite operacional de VaR da classe é o limite da política dividido pelo fator da zona atual sobre três, ou, na formulação inversa, o VaR reportado é multiplicado pelo fator e comparado com o limite. Uma classe na zona amarela com fator 3,65 opera com cerca de 18% menos espaço até que o modelo volte à zona verde ou seja substituído. A regra é objetiva, evita a discussão sobre "se o modelo está bom" no meio de uma crise e, sobretudo, fica escrita na política que a Res. CVM 21/21 exige, com o resultado do backtesting reportado no relatório mensal. As demais exigências da política estão em o que a CVM 175 exige em gestão de risco.

O que fazer quando o modelo falha

  • Separe causa de sintoma. Exceções agrupadas pedem janela ou ponderação; exceções espalhadas pedem revisão da distribuição ou dos fatores; exceções grandes pedem cauda mais pesada ou reprecificação de não lineares.
  • Verifique o mapeamento antes do modelo. Muitas exceções vêm de ativos sem fator ou de fundos investidos sem look-through, não da estatística. O mapeamento está em Fatores Primitivos de Risco.
  • Mantenha o modelo antigo em paralelo durante a troca, com backtesting dos dois.
  • Documente a decisão com data, evidência e responsável. A troca de modelo sem registro é uma mudança de método que o auditor não consegue avaliar.

Erros comuns

  1. Backtesting com o P&L efetivo apenas. Operações do dia e taxas contaminam o teste do modelo.
  2. Janela curta. Com 60 dias, uma exceção já parece falha e nenhuma parece perfeição; a estatística não sustenta conclusão.
  3. Contar exceções sem analisá-las. A zona sem o diagnóstico não diz o que corrigir.
  4. Modelo nunca rejeitado. Zero exceções em três anos é sinal de VaR inflado que consome limite sem necessidade.
  5. Sem fator de escala na política. O semáforo vira informação, não controle.
  6. Sem registro do VaR previsto. Recalcular o VaR passado com o modelo de hoje não é backtesting; é reconstrução.

Checklist de backtesting

Dados, teste e governança

Dados

  • VaR previsto de cada classe gravado diariamente, com horizonte, confiança, método e parâmetros.
  • P&L hipotético e efetivo calculados e guardados por dia.
  • Janela de 250 dias úteis disponível e íntegra.

Teste

  • Exceções contadas e classificadas por zona mensalmente.
  • Cada exceção analisada: tamanho, fatores, contexto de mercado, mudança de carteira.
  • Testes de cobertura e independência aplicados; magnitude das exceções acompanhada.

Governança

  • Fator de escala por zona escrito na política e aplicado ao limite operacional.
  • Resultado no relatório mensal de risco às pessoas indicadas na política.
  • Trocas de modelo em paralelo, documentadas com data, evidência e responsável.

Perguntas frequentes sobre backtesting de VaR

O que é backtesting de VaR?

É a comparação, dia a dia, entre o VaR previsto no fechamento anterior e a perda realizada, com a contagem das exceções, os dias em que a perda superou o VaR. Um VaR de um dia a 99% deve produzir cerca de 2,5 exceções em 250 dias úteis; muitas exceções indicam subestimação do risco e nenhuma por longos períodos indica superestimação. O teste valida o modelo que a política de risco declara.

O que é o semáforo de Basileia?

É a classificação do Comitê de Basileia para o backtesting de VaR de um dia a 99% em 250 dias úteis: zona verde com até 4 exceções, amarela de 5 a 9 e vermelha com 10 ou mais. A zona define o fator de escala aplicado ao VaR no cálculo de capital dos bancos: 3,00 na verde, de 3,40 a 3,85 na amarela e 4,00 na vermelha. As faixas decorrem da probabilidade binomial de exceções em um modelo correto.

O que é o fator de escala de Basileia?

É o multiplicador aplicado ao VaR para o cálculo do capital regulatório de bancos com modelos internos, que parte de 3 na zona verde e sobe até 4 na vermelha conforme o número de exceções do backtesting. Gestoras não têm capital regulatório em jogo, mas usam a mesma lógica para ajustar o limite operacional de VaR à qualidade demonstrada do modelo, com a regra escrita na política de risco.

Qual é a diferença entre P&L hipotético e efetivo no backtesting?

O P&L hipotético, ou limpo, reprecifica a carteira do dia anterior com os preços do dia, sem as operações, taxas e receitas do dia, e é o teste correto do modelo. O P&L efetivo, ou sujo, usa o resultado real da classe e testa o que o cotista viveu. Uma política madura acompanha os dois, porque cada um responde a uma pergunta diferente.

O que é o teste de Kupiec?

É o teste de cobertura incondicional: verifica se a frequência de exceções observada é compatível com o nível de confiança do VaR, por meio de uma razão de verossimilhança comparada a uma distribuição qui-quadrado com um grau de liberdade. Ele detecta subestimação ou superestimação sistemática do risco, mas não diz se as exceções estão agrupadas; para isso usa-se o teste de independência de Christoffersen.

Quantas exceções são aceitáveis no backtesting?

Para VaR de um dia a 99% em 250 dias úteis, até 4 exceções são compatíveis com um modelo correto (zona verde); de 5 a 9 os dados não distinguem com segurança um modelo bom com azar de um modelo ruim com sorte (zona amarela), e a investigação é obrigatória; 10 ou mais indicam modelo muito provavelmente inadequado (zona vermelha). O diagnóstico de cada exceção importa tanto quanto a contagem.

A CVM exige backtesting de VaR das gestoras?

A Resolução CVM 21 exige política de gestão de risco com métricas compatíveis com cada carteira, limites e relatórios periódicos, e supervisão de terceiros que mensurem risco; a validação do modelo é a forma de demonstrar que a métrica declarada funciona. Na prática, o backtesting mensal com o fator de escala escrito na política e o resultado no relatório de risco é o padrão que auditores e supervisores esperam encontrar.

O VaR de ontem guardado para ser cobrado hoje.

Traga a política de risco e as carteiras da sua gestora. Em uma demonstração, mostramos o backtesting de uma classe real: exceções, zona, testes estatísticos, fator de escala aplicado ao limite e o relatório mensal, com a trilha auditável de cada dia.

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