O que o stress test responde que o VaR não responde
O Value at Risk estima a perda máxima esperada em condições normais de mercado, para um horizonte e um intervalo de confiança, a partir da distribuição histórica ou paramétrica dos retornos. Ele é bom para o dia a dia e ruim para dois problemas: caudas, porque a distribuição histórica subestima eventos que não estão na janela, e correlações, porque em crise tudo cai junto e a diversificação some. O teste de estresse ataca exatamente esses dois pontos: escolhe um cenário, específico e severo, e mede a perda da classe sob ele, com as correlações que a crise impõe e não as que a média sugere. As duas métricas se complementam; a metodologia do VaR está em Value at Risk: o guia definitivo para gestoras.
O VaR é o boletim meteorológico: chance de chuva amanhã. O stress test é o projeto do dique: quanto de água a cidade aguenta antes de alagar, mesmo que a cheia só aconteça uma vez por década.
O que a norma e a autorregulação pedem
| Fonte | Exigência | Na prática |
|---|---|---|
| Res. CVM 21/21 | Política de gestão de risco com métricas compatíveis com cada carteira, limites e relatórios em frequência no mínimo mensal | Cenários de estresse definidos por escrito, com limite de perda por classe e responsável |
| CVM 175, Anexo I | Perfil mensal (Suplemento D) com a variação percentual esperada do patrimônio líquido no pior cenário de estresse adotado pelo gestor; lâmina com o cenário de estresse | Resultado apurado por classe e enviado ao administrador todo mês; coerência entre lâmina, perfil e política |
| CVM 175, Anexo I | Exposição a risco de capital e limites de margem por tipo de classe | Cenário de estresse aplicado às margens exigidas, inclusive de fundos investidos no exterior |
| Regras ANBIMA de liquidez | Gestão de liquidez com cenários de estresse para o passivo e para a liquidez dos ativos | Resgates estressados por classe contra ativos convertíveis em caixa com haircut |
| B3 | Cenários de estresse divulgados para o cálculo de margem das câmaras | Referência de mercado para choques por fator; útil para calibrar, não substitui os cenários próprios |
A Consulta Pública SDM 07/25 propõe reduzir o perfil mensal a seis campos, mantendo a variação esperada do PL no pior cenário de estresse entre eles e tornando o envio semestral. Até o fechamento desta versão, a norma final não havia sido editada e o perfil segue mensal.
Três famílias de cenários
Históricos
Repetem choques observados: a crise de 2008, o taper tantrum de 2013, a crise doméstica de 2015 e 2016, o choque de março de 2020, o ciclo de alta de juros de 2021 e 2022. A vantagem é a plausibilidade e as correlações reais; a desvantagem é que a carteira de hoje tem fatores que não existiam na janela. Um cenário histórico é uma matriz de variações por fator (juros, câmbio, bolsa, spreads, commodities) em uma janela de dias, aplicada às exposições atuais.
Hipotéticos
Choques paramétricos definidos pela gestora, isolados ou combinados: deslocamento da curva de juros, queda de bolsa, alta do dólar, abertura de spreads de crédito, choque em uma commodity. São os cenários que a lâmina e o perfil mensal costumam refletir. A força deles está na combinação: choque de juros com queda de bolsa e alta de dólar ao mesmo tempo é o cenário brasileiro clássico, e um cenário de fatores isolados subestima a perda.
Reversos
Partem da perda que a gestora não aceita e perguntam qual choque a produz. Qual queda do Ibovespa consome o limite de perda da classe? Qual resgate esgota o caixa em cinco dias? Qual abertura de spread rompe o limite de risco de capital? O cenário reverso é o mais útil para definir limites, porque conecta a métrica à decisão.
| Fator | Choque hipotético típico | Observação |
|---|---|---|
| Juros pré | Deslocamento paralelo de +200 a +400 pontos-base; inclinação da curva | Aplicar por vértice, não só paralelo |
| Bolsa | −20% a −40% no índice; beta por ação | Small caps com beta maior que 1 |
| Câmbio | +15% a +30% no dólar | Sinal depende da posição: vendida em dólar perde na alta |
| Spread de crédito | +100 a +300 pontos-base, escalonado por rating | Somar ao choque de juros; considerar iliquidez |
| Inflação implícita | ±100 pontos-base nas NTN-B | Separar juro real de inflação |
| Volatilidade | Vol implícita multiplicada por 1,5 a 2 | Essencial para carteiras com opções |
As magnitudes acima são ordens de grandeza usadas no mercado, não parâmetros normativos. O que importa é que cada choque esteja escrito na política, com a justificativa e a data da última revisão.
Como construir o cenário: passo a passo
- Mapear os fatores de risco da classe. Cada posição é decomposta nos fatores que movem seu preço: vértices de juros, índices e betas, moedas, spreads por rating, commodities, volatilidades. Posições em fundos investidos entram por look-through ou por proxy declarada.
- Definir os choques e os co-movimentos. Para cada cenário, a variação de cada fator e a relação entre eles. Em cenário histórico, a matriz vem dos dados; em hipotético, a gestora define e documenta.
- Reprecificar posição a posição. Para ativos lineares, sensibilidade vezes choque é suficiente. Para opções, estruturas e títulos com convexidade relevante, reprecificação completa sob o cenário, porque a sensibilidade linear subestima a perda em choques grandes.
- Agregar por classe. A perda da classe é a soma das perdas reprecificadas, sem benefício de diversificação além do que o próprio cenário embute.
- Comparar com os limites e com a liquidez. Perda em percentual do PL contra o limite da política; margem exigida sob o cenário contra o limite de risco de capital; e a mesma carteira sob o cenário de resgates.
- Documentar e reportar. Resultado por cenário e por classe, gravado com a carteira e os parâmetros do dia, com o pior cenário identificado para o perfil mensal e a lâmina.
Exemplo numérico
Uma classe multimercado com patrimônio de R$ 500 milhões, limite de perda em estresse de 10% do PL, tem quatro exposições principais. O cenário combinado aplica choques simultâneos, como em uma crise doméstica.
| Exposição | Medida | Choque | Perda | % do PL |
|---|---|---|---|---|
| Prefixado 2 anos | DV01 de R$ 60 mil | +300 pontos-base | R$ 18,0 milhões | 3,6% |
| Bolsa | R$ 100 milhões comprados, beta 1 | −30% no índice | R$ 30,0 milhões | 6,0% |
| Dólar | R$ 50 milhões vendidos | +20% no dólar | R$ 10,0 milhões | 2,0% |
| Crédito privado | R$ 150 milhões, duration de spread 2,5 | +200 pontos-base de spread | R$ 7,5 milhões | 1,5% |
| Total | Cenário combinado | R$ 65,5 milhões | 13,1% |
A classe rompe o limite de 10% no cenário combinado, embora nenhuma exposição isolada o rompa. É o resultado típico: o problema não está em uma posição, está na soma delas quando os fatores se movem juntos. A ação que a política prevê nesse caso (reduzir a exposição de bolsa, comprar proteção ou revisar o limite com justificativa) precisa ser tomada e registrada, e o número de 13,1% é o que vai para o perfil mensal como pior cenário. No stress de liquidez da mesma classe, um resgate estressado de 15% do PL em cinco dias úteis (R$ 75 milhões) contra ativos convertíveis em caixa no mesmo prazo, com haircut, de 40% do PL (R$ 200 milhões) fecha com folga; o número entra no mesmo relatório.
Stress de liquidez: o cenário que a ANBIMA cobra
O stress de mercado responde quanto a classe perde; o de liquidez responde se ela consegue pagar. As regras de liquidez da ANBIMA pedem que o gestor compare, por classe, o passivo sob estresse (resgates acima do histórico, concentração de cotistas, prazos de cotização e pagamento) com o ativo sob estresse (prazo de conversão em caixa com haircut maior que o normal, porque em crise o mercado seca). Os dois lados se movem no mesmo cenário: o dia em que a bolsa cai 30% é o dia em que os resgates sobem e o crédito privado não tem comprador. A construção do lado do passivo e as ferramentas do regulamento estão em gestão de liquidez em fundos: as regras da ANBIMA na prática.
Governança: frequência, limites e ação
- Frequência. Diária para classes líquidas e para o cenário que alimenta o limite; mensal, no mínimo, para o relatório às pessoas indicadas na política, conforme a Res. CVM 21.
- Limites. Perda máxima em estresse por classe, expressa em percentual do PL, com faixa de alerta. O cenário reverso mostra se o limite é compatível com a estratégia.
- Ação. A política diz o que acontece quando o limite é rompido: reduzir, proteger, comunicar. O registro da ação é tão importante quanto o cálculo.
- Revisão da biblioteca. Cenários são revisados pelo menos uma vez por ano e depois de qualquer evento relevante de mercado, com data e justificativa. Uma biblioteca parada em 2020 não descreve 2026.
- Coerência entre documentos. O cenário da lâmina, o pior cenário do perfil mensal e a política precisam contar a mesma história; divergência entre eles é o primeiro achado de qualquer inspeção.
Erros comuns
- Cenário sem combinação. Fatores chocados um a um, e o pior deles reportado como pior cenário.
- Sensibilidade linear em carteira com opções. Delta vezes choque ignora gama e vega, justamente onde a perda em crise se concentra.
- Biblioteca congelada. Cenários definidos na abertura da gestora e nunca revisados.
- Stress de mercado sem stress de liquidez. A classe sobrevive à perda, mas não aos resgates que a perda provoca.
- Resultado sem ação. O limite é rompido no relatório mensal e nada acontece, o que transforma o limite em decoração.
- Números diferentes em documentos diferentes. Lâmina, perfil e política com cenários que não batem.
Checklist do stress test
Cenários, cálculo e governança
Política
- Biblioteca de cenários históricos, hipotéticos e reversos escrita, com choques, co-movimentos e justificativa.
- Limite de perda em estresse por classe, com faixa de alerta e ação prevista.
- Revisão anual da biblioteca e após eventos relevantes, com data.
Cálculo
- Fatores de risco mapeados por posição, com look-through ou proxy declarada para fundos investidos.
- Reprecificação completa para posições não lineares; sensibilidades para as lineares.
- Margens sob estresse comparadas ao limite de risco de capital.
- Stress de liquidez do passivo e do ativo no mesmo cenário.
Reporte e evidência
- Resultado por cenário e classe gravado diariamente com carteira e parâmetros.
- Pior cenário do perfil mensal e cenário da lâmina coerentes com a política.
- Relatório mensal às pessoas indicadas na política; ações de rompimento registradas.
Perguntas frequentes sobre stress test em fundos
O que é teste de estresse em fundos de investimento?
É a medida da perda que uma classe de cotas sofreria sob um cenário específico e severo de mercado, definido pelo gestor, com os fatores de risco chocados de forma simultânea. Diferentemente do VaR, que estima a perda provável em condições normais, o stress test mede a perda em condições extremas, inclusive as que não estão na janela histórica, e serve de base para limites, para o perfil mensal e para a lâmina.
A CVM exige stress test dos fundos?
A Resolução CVM 21 exige política de gestão de risco com métricas compatíveis com cada carteira, limites e relatórios periódicos, e o Anexo Normativo I da Resolução CVM 175 exige que o perfil mensal informe a variação percentual esperada do patrimônio líquido no pior cenário de estresse adotado pelo gestor, além do cenário de estresse na lâmina. As regras de liquidez da ANBIMA exigem cenários de estresse para o passivo e para os ativos.
Qual é a diferença entre stress test e VaR?
O VaR estima a perda máxima esperada em condições normais, para um horizonte e um intervalo de confiança, a partir da distribuição dos retornos. O stress test escolhe um cenário severo e mede a perda sob ele, com as correlações que a crise impõe. O VaR falha nas caudas e nas correlações de crise; o stress test cobre exatamente esses pontos. Uma política de risco completa usa os dois.
Quais cenários de estresse usar em um fundo?
Três famílias: cenários históricos, que repetem choques observados como 2008, 2013, 2015 e 2016, março de 2020 e o ciclo de juros de 2021 e 2022; cenários hipotéticos, com choques paramétricos combinados em juros, bolsa, câmbio, spreads e volatilidade; e cenários reversos, que partem da perda inaceitável e perguntam qual choque a produz. Cada cenário precisa estar escrito na política, com justificativa e data de revisão.
Como calcular o pior cenário de estresse do perfil mensal?
Aplicando cada cenário da política à carteira da classe, com reprecificação das posições sob os choques combinados, e identificando o cenário com maior perda em percentual do patrimônio líquido. Esse número, apurado sobre a carteira do fechamento, é o que o gestor fornece ao administrador para o perfil mensal e precisa ser coerente com o cenário descrito na lâmina.
O que é stress test de liquidez?
É a comparação, sob um cenário de crise, entre o passivo estressado da classe (resgates acima do histórico, concentração de cotistas, prazos de cotização e pagamento) e os ativos convertíveis em caixa no mesmo prazo, com haircut maior que o normal. As regras de liquidez da ANBIMA exigem essa análise por classe, e o cenário deve ser o mesmo do stress de mercado, porque a queda de preços e a onda de resgates acontecem juntas.
Com que frequência o stress test deve ser feito?
Diariamente para as classes líquidas e para o cenário que alimenta o limite de perda, e no mínimo mensalmente para o relatório às pessoas indicadas na política de risco, como exige a Resolução CVM 21. A biblioteca de cenários deve ser revisada ao menos uma vez por ano e após eventos relevantes de mercado, com registro da data e da justificativa.
VaR, stress de mercado e stress de liquidez por classe, todo dia, com a evidência de cada cálculo.
Traga a política de risco e as carteiras da sua gestora. Em uma demonstração, aplicamos os seus cenários a uma classe real, mostramos a reprecificação sob choques combinados, a comparação com os limites e o número que vai para o perfil mensal, com a trilha auditável.
Conhecer o FundsysEste conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a leitura das normas citadas nem a assessoria jurídica da sua instituição. Prazos, números de artigos e entendimentos das áreas técnicas foram verificados em agosto de 2026 e são revisados trimestralmente; alterações posteriores podem não estar refletidas.