CVM 175 & Regulatório Satélite

Fundos multimercado: controles de risco e derivativos

O multimercado é a classe em que a Resolução CVM 175 mais cobra da gestão de risco: derivativos, alavancagem e posições em vários fatores ao mesmo tempo, com responsabilidade limitada dos cotistas e limite de margem no Anexo I. O controle não é impedir o risco, e sim medi-lo todos os dias por classe, contra limites escritos, e provar que foi medido. Este satélite organiza os controles específicos de multimercados: risco de capital e margens, exposição por fator, VaR e estresse, liquidez sob chamada de margem e o tratamento de desenquadramentos.

Bruno Haas

CEO · Fundsys

Pablo Brenner

CTO · Fundsys

· 7 min de leitura

O que a norma pede da classe multimercado

O Anexo Normativo I da Resolução CVM 175 trata a exposição a risco de capital como a situação em que a classe realiza operações em valor superior ao seu patrimônio, e prevê limites máximos de margem por tipo de classe, com o multimercado na faixa mais alta. Com a responsabilidade limitada do cotista, a norma passou a se preocupar com o patrimônio negativo: se a classe perde mais do que tem, o caminho é o regime de insolvência, e não a chamada de capital. Daí o par de exigências: limite de margem apurado diariamente e política de risco da Res. CVM 21/21 com métricas, limites e relatórios compatíveis com uma carteira alavancada.

Um multimercado alavancado é um carro com turbo: a norma não proíbe o turbo, exige velocímetro, freio e a prova de que o motorista olhou os dois.

Os controles específicos

ControleO que apurarFrequência
Risco de capital e margensMargens exigidas nas operações com garantia mais margem potencial dos derivativos sem garantia, consolidando fundos investidos no exterior, contra o limite do regulamento e do Anexo IDiária e pré-ordem
Exposição por fatorExposição líquida e bruta em juros por vértice, câmbio, bolsa, crédito e commodities, contra os tetos da política e do regulamentoDiária e pré-ordem
AlavancagemExposição bruta nocional sobre o PL; exposição por fator sobre o PLDiária
VaR e estresseVaR por classe com método declarado; cenários combinados; reprecificação de opções; backtesting mensalDiária; mensal
Liquidez sob margemCaixa e ativos de conversão imediata contra chamada de margem estressada mais resgates estressadosDiária
Contrapartes de balcãoExposição por contraparte e garantias recebidas; limites do regulamentoDiária
Investimento no exteriorPercentual do PL, câmbio e margens de veículos no exterior, conforme as condições do Anexo IDiária

Derivativos: o que muda no controle

  • Nocional não é exposição. Um futuro de DI de nocional alto pode ter DV01 pequeno; o controle olha a sensibilidade por fator, não o valor de face. O mapeamento está em Fatores Primitivos de Risco.
  • Opções exigem reprecificação. Delta vezes choque subestima a perda; VaR e estresse reprecificam as opções sob os cenários.
  • Margem é liquidez. A chamada de margem em dia de choque é a maior saída de caixa da classe e precisa estar na projeção de caixa com cenário de estresse.
  • Hedge tem base. Posições que se anulam no nocional podem não se anular no risco (vencimentos e ativos-objeto diferentes); o controle mede a exposição líquida por fator e vértice.
  • Balcão tem contraparte. Swaps e opções flexíveis carregam risco de crédito da contraparte e exigem limite e garantias.

Desenquadramentos em multimercados

Em carteiras alavancadas, o desenquadramento costuma ser de margem ou de exposição por fator, e costuma ser ativo: nasce de uma ordem. O pré-ordem é o controle que o evita, e o tratamento segue os prazos e comunicações da CVM 175 descritos em desenquadramento passivo x ativo. O dossiê precisa mostrar a margem e a exposição no momento da ordem, não só no fechamento.

Erros comuns

  1. Controlar nocional. Limite de "derivativos até X% do PL" sem sensibilidade por fator.
  2. Margem só depositada. A margem potencial dos derivativos sem garantia e a dos fundos investidos ficam de fora.
  3. Opções por delta. O estresse subestima a perda justamente no cenário que importa.
  4. Liquidez sem chamada de margem. A cobertura parece confortável até o dia de choque.
  5. Pré-ordem desligado para a mesa de derivativos. Todo excesso vira desenquadramento ativo.

Checklist de controles em multimercados

Risco de capital, fatores e liquidez

Regras

  • Limite de margem do regulamento e do Anexo I cadastrado por classe; consolidação de fundos investidos definida.
  • Tetos de exposição por fator e vértice na política, com faixas de alerta.
  • Limites de contraparte de balcão e de investimento no exterior cadastrados.

Apuração e evidência

  • Risco de capital, exposição por fator, VaR, estresse e liquidez sob margem apurados diariamente por classe.
  • Pré-ordem ligado para todas as ordens, inclusive derivativos.
  • Opções reprecificadas nos cálculos de risco; backtesting mensal.
  • Dossiês de desenquadramento com margem e exposição no momento da ordem.

Perguntas frequentes sobre controles em multimercados

O que é exposição a risco de capital em um multimercado?

É a situação em que a classe realiza operações em valor superior ao seu patrimônio, típica de carteiras com derivativos e alavancagem, tratada pelo Anexo Normativo I da Resolução CVM 175. A norma prevê limites máximos de margem por tipo de classe, e o gestor consolida as margens exigidas, inclusive de fundos investidos no exterior, contra o limite do regulamento.

Como controlar derivativos em fundos multimercado?

Pela sensibilidade a cada fator de risco e não pelo nocional: DV01 por vértice, delta e beta, exposição cambial, vega e gama, com reprecificação completa das opções no VaR e no estresse; pelo limite de margem apurado diariamente e no pré-ordem; pela liquidez sob chamada de margem estressada; e pelos limites de contraparte nas operações de balcão.

Por que a chamada de margem entra no controle de liquidez?

Porque em dia de choque a chamada de margem é a maior saída de caixa da classe, e acontece ao mesmo tempo em que os resgates sobem e os preços caem. A cobertura de liquidez precisa comparar caixa e ativos de conversão imediata com a margem estressada mais os resgates estressados, no mesmo cenário.

Como a responsabilidade limitada afeta o controle dos multimercados?

Com a responsabilidade do cotista limitada ao valor das cotas, o patrimônio negativo da classe leva ao regime de insolvência, não à chamada de capital. Por isso a Resolução CVM 175 exige controle rigoroso da exposição a risco de capital e limite de margem, e a política de risco precisa impedir que a classe perca mais do que tem.

Desenquadramento em multimercado é passivo ou ativo?

Em carteiras alavancadas, o desenquadramento costuma ser de margem ou de exposição por fator e costuma nascer de uma ordem, o que o caracteriza como ativo, com comunicação do administrador à CVM nos prazos do Anexo I. O pré-ordem é o controle que o evita, e o dossiê precisa mostrar a margem e a exposição no momento da ordem.

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Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui a leitura das normas citadas nem a assessoria jurídica da sua instituição. Prazos, números de artigos e entendimentos das áreas técnicas foram verificados em agosto de 2026 e são revisados trimestralmente; alterações posteriores podem não estar refletidas.